Oportunidades desperdiçadas


A hipocrisia parece ser a marca registrada de muitos atualmente, e é curiosa a expressão de espanto que essas figuras fazem quando confrontadas e de irritação quando suas contradições são denunciadas. Na política, já de longa data, a manipulação, o engodo e a preponderância de interesses pessoais tem sido a regra, embora mesmo culturas tradicionais continuem enfrentando inúmeros problemas. Na religião, já sem o brilho de outrora, sacerdotes e líderes contemporâneos defendem corriqueiramente o pretenso direito natural de grupos guerrilheiros e terroristas, apoiando ainda sistemas coletivistas em que a posse legítima de quaisquer bens seria potencialmente criminosa. Nas ciências, tem crescido o número de projetos em que o ser humano não passa de fonte de lucros, e em que pretensos pesquisadores só estão interessados em subsídios e patrocínios ou qualquer forma de vantagem. No mercado, coexistem modelos empresariais sustentáveis e empreendimentos degradadores e devastadores, os quais por serem aparentemente majoritários minam de forma quase que irreversível o meio ambiente. Em outras palavras, há um sem número de oportunidades desperdiçadas, basicamente, porque quem devia ou podia agir em prol do bem comum, isolou-se numa bolha (de ilusões). É claro que a situação é ainda mais intrincada, pois, independentemente do grau de consciência, flertamos dia a dia com o risco de apegos dos mais variados. Aliás, não é por obra do acaso que ganham força lições como: "as virtudes florescem no desapego" ou "o apego é a raiz de todos os males" etc. Se considerarmos que as coisas mais valiosas da vida não têm preço, fica fácil perceber o que de fato merece a nossa atenção. Estou convicto de que mesmo que fôssemos minoritários poderíamos marcar positivamente pessoas, lugares e tudo em que tocássemos ou com o que nos relacionássemos. Talvez não mudássemos o mundo, mas esta não é a nossa missão, ao menos, não necessariamente. Além do mais, o essencial é que avancemos um passo por vez, com consciência, liberdade e propósito. É bem provável ainda que desagradaremos a muitos mais no processo, mas só assim teremos condições de aproveitar realmente as oportunidades ou o dom da vida, justificando, enfim, a própria existência.



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