Desde a antiguidade o ser humano tem se preocupado com a identificação de sua função no mundo e, embora contasse apenas com as respostas oferecidas pelas antigas ordens religiosas, esforça-se por entender os enigmas do universo. Suas impressões iniciais conduzem-no para a vinculação dos fatos naturais e sociais ao desígnio das deidades que, segundo julgava, dirigiriam as contingências da espécie, a despeito de assim considerar por faltar-lhe o aparato conceitual que viria a ser aprimorado em período evolutivo posterior. De forma geral, o pensamento das nações concebia a espécie humana como fantoche em um cenário cujos idealizadores seriam as suas divindades, atribuindo-lhes, assim, a responsabilidade pelos acidentes que as assolavam. Com a elaboração do método de reflexão filosófica inaugurado pelos gregos, em seu apogeu cultural, evidencia-se uma ampla revolução nos conceitos, porquanto a humanidade é percebida como portadora de um potencial para a ação até então desprezado. Deste modo, o gênero humano assume o centro das investigações e em decorrência dos desdobramentos das análises, por algum tempo, torna-se o autor de seu próprio destino. No entanto, há que se reconhecer que o predomínio do misticismo viria a subverter a ordem que a razão vinculara ao mundo, impondo-lhe uma predeterminação transcendental, o que o predispõe novamente ao governo do imaginário. A deterioração advinda de tal episódio arremessaria a humanidade no exílio intelectual, pois, tolhida de sua liberdade de pensar, passaria a ser afligida pelo prenúncio da condenação eterna. Decorridos os séculos que separam a sociedade atual daquele modelo, constata-se a relutância dessa abordagem mítica em desatar as cadeias que encarceram o pensamento de muitos, privando-os da responsabilidade que, inclusive, é garantida constitucionalmente, visto que ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei. Para equilíbrio da equação, a Ciência, herdeira da Filosofia, tem permitido à espécie humana o acesso ao instrumental que, invariavelmente, possibilita-lhe a adequação das condições físicas e psicológicas necessárias à conquista da autonomia. Por conseguinte, mesmo não se apropriando desta prerrogativa por um ato de deliberação própria, é impossível ao sujeito se eximir indefinidamente da responsabilidade que lhe cabe, pois ninguém se escusa de cumprir a lei, alegando que não a conhece, aspecto a determinar que, quer reconheça-se ou não como realizador de seu destino, o ser humano é, necessariamente, autor ou réu no processo desencadeado pela existência.
A autonomia do ser
Ariovaldo Esgoti
15/10/2007