Em respeito a um dos objetivos que vislumbrei ao idealizar esta página, embora o espaço disponível não permita abordagens aprofundadas, julgo que seja importante apresentar um breve estudo sobre alguns dos principais elementos envolvidos no processo de avaliação patrimonial para que os interessados no tema tenham condições de conciliar os aspectos teóricos com as implicações práticas, tornando possível o acesso a um mecanismo básico de análise.
Dentre as alternativas para a realização dos exames, privilegiarei o método consagrado pela legislação societária brasileira: o valor presente dos fluxos de caixa futuros, adaptando-o para adequar sua exposição às características deste espaço.
Aos interessados nos requisitos teóricos, sem prejuízo de outras referências, recomendo o exame: da Deliberação CVM nº 527/07, na qual a Comissão de Valores Mobiliários - CVM trata da "Redução ao Valor Recuperável de Ativos"; do Pronunciamento Técnico CPC n° 03, no qual o Comitê de Pronunciamentos Contábeis - CPC expõe a metodologia concernente à "Demonstração de Fluxos de Caixa"; e do Capítulo III, da Dissertação de Pós-graduação em Engenharia de Produção, no qual A. Mueller aborda as principais variáveis relacionadas à análise de "séries temporais".
Para fins didáticos, considerarei uma versão sintética da demonstração de fluxos de caixa, lembrando que, segundo consagrado pela legislação e o mercado, o ideal é a cobertura de, no mínimo, um período de cinco anos, os quais devem permitir o desmembramento dos principais grupos em bases mensais, visto que, além da identificação da tendência do empreendimento, é imperativa a determinação de suas variações sazonais.
Consideremos, então, as seguintes informações de uma empresa exemplo, trabalhadas em um quadro que simula uma planilha eletrônica (Excel):
| A | B | C | D | |
| 1 | Período | Fluxo Operacional | Tendência | Variação |
| 2 | 2003 | 746.877,39 | 650.922,06 | 95.955,33 |
| 3 | 2004 | 452.656,87 | 616.955,97 | -164.299,10 |
| 4 | 2005 | 622.738,19 | 582.989,88 | 39.748,31 |
| 5 | 2006 | 578.603,16 | 549.023,79 | 29.579,37 |
| 6 | 2007 | 514.073,79 | 515.057,70 | -983,91 |
| 7 | 2008 | 594.607,33 | 481.091,61 | 113.515,72 |
| 8 | 2009 | 552.947,96 | 447.125,52 | 105.822,44 |
| 9 | 2010 | 508.322,84 | 413.159,42 | 95.163,42 |
| 10 | 2011 | 466.174,17 | 379.193,33 | 86.980,84 |
| 11 | 2012 | 426.414,15 | 345.227,24 | 81.186,91 |
| 12 | 2013 | 388.208,05 | 311.261,15 | 76.946,90 |
- Período: dados conhecidos, de 2003 a 2007;
- Fluxo operacional: fluxo de caixa gerado no período, em moeda constante (com os efeitos inflacionários ajustados);
- Tendência: função do Excel (na célula C2) "TENDÊNCIA($B$2:$B$6;$A$2:$A$6;$A2)";
- Variação: diferença entre o fluxo operacional e a tendência (incorpora o ciclo de maior amplitude e a sazonalidade);
- Projeção: dados estimados, de 2008 a 2013, com adição da margem de erro - dada pela função do Excel (na célula C7) "EPADYX($B$2:$B6;$A$2:$A6)".
Os dados relativos ao período conhecido possibilitam algumas inferências sobre os retornos futuros da empresa simulada no exemplo. Desde que mantidas as variáveis do ambiente empresarial (o que aqui ocorre para simplificar a exposição), como tecnologia, fornecedores, clientes, legislação, política de reinvestimentos e de distribuição dos resultados, dentre outras, a tendência indica a probabilidade de ocorrência de:
- perda de participação no mercado;
- redução da margem de contribuição dos produtos;
- declínio dos fluxos operacionais;
- queda da capacidade de distribuição de lucros;
- diminuição do valor por quota ou ação - etc.
Tais conclusões são possibilitadas pela característica elementar inerente ao grau de inclinação da reta, ou seja, se ascendente, melhoria dos indicadores, se descente, como no caso em exame, comprometimento de, praticamente, todos.
Concebendo a possibilidade de a avaliação ser realizada no início de 2008, teríamos o seguinte quadro:
| A | B | C | D | |
| 1 | Período | Fluxo Operacional | Valor Presente | Fluxo Total |
| 2 | 2008 | 594.607,33 | 457.390,25 | 1.374.443,48 |
| 3 | 2009 | 552.947,96 | 327.188,14 | 917.053,23 |
| 4 | 2010 | 508.322,84 | 231.371,34 | 589.865,08 |
| 5 | 2011 | 466.174,17 | 163.220,54 | 358.493,74 |
| 6 | 2012 | 426.414,15 | 114.845,73 | 195.273,20 |
| 7 | 2013 | 388.208,05 | 80.427,47 | 80.427,47 |
- Período: dados estimados, de 2008 a 2013;
- Fluxo operacional: fluxo de caixa estimado para o período;
- Valor presente: função do Excel (na célula C2) "VP(30%;CONT.VALORES($B$2:$B2);0;-$C2;0)";
- Fluxo total: montante compreendendo do período atual até o último - função do Excel (na célula D2) "SOMA($C2:$C$7)".
Neste exemplo, foi adotada a taxa de desconto de 30% a.a., especialmente para ilustrar o cálculo, entretanto devo ressaltar que a escolha do percentual a ser utilizado deve levar em consideração o custo de oportunidade do investidor, adicionando-se, ainda, uma margem que represente o risco do negócio, pois, se, na prática fosse apurada uma volatilidade semelhante à indicada pelo caso objeto do estudo, é possível que a taxa fosse maior, ou nem mesmo devesse ser considerado o investimento, afinal seria ingenuidade tratar o tema como um jogo ou loteria.
Em termos práticos, o valor da empresa, tomando por base esta metodologia, será encontrado pela adição do valor presente dos fluxos de caixa futuros (R$ 1.374.443,48) ao valor de realização dos ativos existentes. Se, por exemplo, a empresa possuísse ativos líquidos no valor global de R$ 543.752,30 (após a realização do pagamento aos credores) teríamos o montante de R$ 1.918.195,78 como a importância que representaria o seu patrimônio líquido presente.
Devo reconhecer que a dificuldade não se relaciona aos procedimentos para os cálculos, pois noções de matemática financeira, de estatística e de contabilidade serão suficientes para a sua realização, ao menos, em linhas gerais.
Contudo, mensurar as prováveis oscilações das variáveis ambientais para reconhecimento de seus efeitos nos fluxos de caixa, e identificar a taxa de desconto à luz do risco representado pelo negócio, este sim é o desafio, visto que a viabilidade do investimento deve, necessariamente, considerar o melhor nível de retorno ao capital alocado.
Não será discutido aqui, mas espero poder abordar em outro artigo alguns aspectos relacionados ao conceito de volatilidade, para exposição dos cálculos e realização das análises que remeterão às políticas de gestão de riscos pelo empresariado.