Uma questão que, em regra, provoca embates em alguns círculos, sejam acadêmicos, sejam profissionais, diz respeito ao critério para a tomada de decisões, especialmente, no setor empresarial, embora o princípio também afete a esfera pessoal dos envolvidos: o interessado deveria confiar no poder dos números ou se entregar de corpo e alma ao processo intuitivo?
Inicialmente, é necessário esclarecer que o critério de se pautar por números remete à produção inerente às áreas administrativa e contábil quando trabalham afinadas, ou seja, quando há o imperativo da gestão estratégica, modelo este que leva o corpo diretivo da empresa a análises aprofundadas sobre o ambiente (econômico, tecnológico, governamental, etc.) em que atua.
Há que se reconhecer que estes estudos proporcionam à direção do empreendimento informações imprescindíveis, como: investimentos requeridos pelo grau de produtividade idealizado; qualificação da equipe de apoio em cada nível organizacional; relação entre margem de contribuição, lucro e rentabilidade, particularmente, quanto à tendência dos projetos; e o grau de alavancagem exigido pelo objetivo estratégico; dentre outras.
As informações destacadas são apresentadas à administração da empresa em relatórios que as traduzem numericamente, de fato, econômica e financeiramente, já que para a geração de receitas é impossível renunciar aos gastos que advém da aplicação dos recursos disponibilizados para o cumprimento do plano estabelecido.
Neste ponto, surge uma questão crucial: Para o êxito de quaisquer projetos é suficiente que seja seguido o planejamento, visto que as informações estratégicas estão nele contempladas?
Seria ingenuidade afirmar que sim, pois o mundo se revela um pouco mais complexo do que muitos gostariam que fosse. Entretanto, concorreria, igualmente, para a inocência a atitude de ignorar o conjunto de informações que sobrevêm de um plano elaborado criteriosamente.
Agora, é momento de apresentar ao caro leitor a panacéia defendida com tenacidade, principalmente, por aqueles que não têm tempo ou estrutura para planejar: a intuição, o elemento que teria a virtude de sondar o insondável, para não dizer, justificar o injustificável.
Recorro ao Dicionário Aurélio, e encontro as seguintes definições:
1. Ato de ver, perceber, discernir; percepção clara e imediata; discernimento instantâneo; visão.
2. Ato ou capacidade de pressentir; pressentimento:
3. Filos. Conhecimento imediato de um objeto na plenitude da sua realidade, seja este objeto de ordem material, ou espiritual.
4. Filos. Apreensão direta, imediata e atual de um objeto na sua realidade individual.
GOLEMAN, KAUFMAN e RAY (O espírito criativo, 2000, p. 11) a apresentam de forma pitoresca:
Isto já aconteceu com você?
Você saiu para correr, está completamente descontraído, com o espírito tranqüilo.
Eis que, de súbito, ocorre-lhe a solução de um problema que vinha remoendo há dias ou semanas. Você, então, se pergunta por que não pensou naquilo antes...
Nesses momentos, entramos em contato com o espírito criativo, esta musa das boas - e, às vezes, grandes - idéias.
A lista de referências poderia prosseguir, contudo, creio que a integração de ambas as citadas já é suficiente para a elucidação do caso: determinar o que é e como funciona a intuição.
Enfrentando o assunto, constatamos que a intuição é uma forma de percepção, de discernimento, geralmente, instantânea sobre determinada questão. Este mecanismo de pressentimento possui dependência extrema de algo que, no geral, escapa a muitos: o ato de remoer um problema, em outros termos, pensar ou refletir muito em (Dicionário Aurélio).
É preciso defrontar o seguinte: aquele que busca a solução para certo desafio teria como se dedicar (pensar ou refletir), acuradamente, sobre o objeto de seu interesse sem que colha um mínimo de informações acerca do caso?
Para os que entendem que é possível desprezar as análises, há que se lhes desejar boa sorte, afinal, ninguém em sã consciência quer que o próximo tenha problemas.
Todavia, aqueles que concordam que não é razoável abandonar-se à própria sorte deverão reconhecer que a legítima intuição decorre de trabalho árduo. É imperativo o levantamento do maior número de informações sobre a questão alvo.
No caso de uma empresa, é indispensável a formulação de um plano de negócios, pois este processo fornece ao inconsciente dos envolvidos informações que possibilitam o exame das tendências que lhes são pertinentes, alimentando, assim, o repertório intuitivo para que os lampejos de percepção tornem-se viáveis.
Isto significaria que podemos controlar o processo intuitivo? A resposta parece-me óbvia. O fato é que enquanto a idéia criativa não ocorre o mundo continua em marcha, sendo assim, decisões precisam ser tomadas e nada substitui o planejamento como bússola.