Alguns dos principais nomes ligados a pesquisas sobre o funcionamento da mente humana concebem que o ser humano apresenta certa dose de resistência diante de um conhecimento novo, de uma experiência ou evento que o tire de algo semelhante a uma zona de conforto. Este espaço, formado basicamente por conteúdos cujos riscos são familiares, e isto independentemente de serem ou não benquistos, pode envolver o indivíduo com tamanha força que, mesmo diante de perigo iminente, veja-se tomado por uma inércia potencialmente esmagadora. Sem importar o segmento em que atua, ou mesmo se integra ou está à frente de um empreendimento, o fato é que o mundo de hoje não é complacente com aquele que se detém diante de desafios, ainda que o fizesse movido por uma nobre razão, um ato deliberado para evitar a possibilidade de erro. O motivo é simples, a natureza requer dinamismo para transformação. Como a estabilidade se contrapõe à mudança, desejar um caminho diferente do que implique em exposição e risco serve, no máximo, para revelar o contra-senso em que vive o sujeito. Entretanto, deve ser ressaltado que, se por um lado, riscos precisam ser assumidos, por outro, não há sabedoria em se lançar à empreita sem um mínimo de planejamento. Correr riscos sem ter um plano de escape, antes de evidenciar coragem, caracteriza ingenuidade. Por mais absurdo que possa parecer, há inúmeros representantes desses extremos à frente de departamentos ou, mesmo, de empresas. Conhecidos de muitos, o apático e o ingênuo deixam sua marca por onde quer que passem. O primeiro, por tudo aquilo que poderia ter feito. O segundo, pelos excessos cometidos em nome da vanguarda, da inovação. Quem observa tal contraste, naturalmente, se põe a indagar sobre se haveria um ponto de equilíbrio, se poderia ser desenvolvida uma atitude que combinasse o melhor de ambos os modelos. Tomando o segmento empresarial como exemplo, qual seria o perfil desejável para um profissional (ou empresário) de sucesso? Pense por alguns instantes, caro leitor: se estivesse ao seu alcance, o que você escolheria: ser um profissional (ou empresário) atuante ou reativo? Hum, quase posso ouvir o eco de seus pensamentos... Ainda que tentasse, você não conseguiria disfarçar... Desde já, é imprescindível a superação de um mito inerente a esta questão, o de que, em algum lugar, há um representante que tipifique o ser humano perfeito. Quanto mais cedo for assumido o fato de que a perfeição não passa de uma conjectura de caráter extremamente particular, visto que inexiste consenso sobre este ideal, mais rapidamente serão encontradas alternativas para minimização dos problemas provocados pelo desequilíbrio entre os tipos. Todos colecionam experiências em que, em um momento, a ação foi apressada demais, e, em outro, a inércia dominou, tendo, assim, que ser pago o preço pela falta de sintonia com o ritmo dos eventos. A chave advém, exatamente, da compreensão dos contrastes. Como não há ser humano dotado integralmente de um ou outro dos aspectos, pois todos apresentam, em maior ou menor grau, ambas as características, equilíbrio é palavra de ordem. Exceto, talvez, pelo arranjo do texto, o princípio não é novidade. É tão antigo quanto a própria história da cultura civilizada. Os excessos são condenáveis. O desejável é o meio termo... Na prática, segundo Cláudio Henrique da Silva (1998), em reflexão sobre a ética aristotélica, significa privilegiar a virtude, aos vícios por deficiência ou por excesso: a) entre covardia e temeridade, coragem; b) entre avareza e esbanjamento, liberalidade; c) entre modéstia e vaidade, respeito próprio; d) entre indiferença e irascibilidade, gentileza; e) entre enfado e condescendência, amizade... À luz dessas breves considerações, há que se reconhecer que o perfil mais apropriado para atuar profissionalmente deve, na realidade, reunir ambos os traços, porém, ajustados para que os opostos trabalhem harmonicamente com vistas ao êxito do processo. Em outros termos, o profissional (ou empresário) deve se esmerar pela estabilidade mental e emocional, já que a regra é a mudança, para contar com reais condições de transitar de desafio em desafio.
Estabilidade em meio a mudanças
Ariovaldo Esgoti
28/07/2008