Em sua origem, embora sem o formato que a Ciência viria a lhe conferir, a Contabilidade era utilizada para o controle (inventário) dos bens de determinado interessado, geralmente, o que denominaríamos atualmente de grande produtor ou, adicionalmente, de gestor público.
Com o avanço da civilização, cresceu o número de pessoas que nela perceberam um potencial expressivo de subsídios para o processo decisório, tornando-a companheira inseparável da arte de bem administrar.
Entretanto, em especial, com o advento do mercado de capitais foi estimulada uma distorção quanto ao seu papel na vida dos empreendimentos. De fonte de informações passa à condição (ao menos, para alguns) de obrigação acessória de ordem tributária ou societária.
Para agravar um pouco mais a situação, contemporaneamente, consolida-se o modelo da terceirização de serviços contábeis, sistema que leva a um significativo distanciamento de sua produção diária da realidade do gestor, a despeito da existência de maravilhosas exceções que renunciaram ao mero formalismo para contribuir, de fato, com a organização dos empreendimentos.
Atualmente, a cultura empresarial, em particular, a que emana das microempresas e empresas de pequeno porte tem a tendência de desprezar os relatórios contábeis, visto que, em regra, não os compreendem ou as informações elencadas não se revestem de fidedignidade.
Estes problemas podem ser solucionados com a adoção de algumas medidas, tais como: melhor comunicação entre os gestores e a contabilidade, aliança entre o empreendedor e o contabilista, maior zelo no acobertamento das transações pela empresa, e privilégio do princípio da legalidade, dentre outras.
É preciso reconhecer que a união entre os dirigentes da empresa e o responsável pela contabilidade (especialmente, quando terceirizada) exige esforços de ambos, já que é o consenso sobre os objetivos que levará à mútua satisfação.
Como os processos que resultam da atividade empresarial são dinâmicos, com conseqüências, potencialmente, graves, é inconcebível que as operações sejam desencadeadas sem o devido cuidado na formalização dos fatos. Os eventos mensuráveis econômica e financeiramente devem ser de contínuo acobertados por documentação hábil e idônea.
Decisões fazem parte do dia-a-dia do gestor e para que atendam aos requisitos da sociedade moderna, a qual segue por um caminho que é irreversível (com apelos freqüentes à responsabilidade social e à ética, apenas para citar os usuais), devem ser pautadas pela Ordem Constitucional, ou seja, devem ter como premissa elementar a legalidade de cada uma de suas fases.
Tais considerações não farão muito sentido se a empresa e a contabilidade não estiverem dispostas a aperfeiçoarem a comunicação, pois, como se dá em quaisquer relações, o diálogo de qualidade é imprescindível para a superação de desafios.
No que diz respeito a este processo, vários aspectos podem ser ressaltados, entretanto, para fins didáticos cabe apontar:
a) do lado da empresa - o sistema contábil pode evoluir e muito se houver maior proximidade com a administração da empresa, visto que os eventos registrados conquistarão uma correspondência inquestionável com sua origem. É o fim da existência de lacunas que poderiam estimular a adoção de atalhos potencialmente prejudiciais para ambos;
b) do lado da contabilidade - os dirigentes podem se beneficiar com informações como: rentabilidade; nível de investimentos; relação entre faturamento, volume e lucro; endividamento; rotação de ativos; e ciclo operacional; dentre outras.
Cabe ainda uma observação quanto ao potencial preditivo das informações contábeis. Se, por um lado, em regra, estas informações têm caráter histórico (em outros termos, remetem ao passado), por outro, se devidamente tratadas, podem evidenciar com grau adequado de exatidão as perspectivas que sobrevirão à empresa, possibilitando-lhe a preparação para cenários, eventualmente, desfavoráveis.
Para aquele que julga ser elevado o custo de um modelo contábil como o sugerido, uma informação: o que custará caro tanto ao gestor como ao contabilista e à sociedade é o encerramento abrupto das atividades da empresa. Ao primeiro por ver ruir o sonho de erigir um empreendimento que marcasse sua passagem, além de contribuir para a melhoria do meio. Ao segundo, por permitir que desabasse uma proposta que necessitava de seus recursos. Ao terceiro, por ver desperdiçados recursos tão especiais e indispensáveis ao fortalecimento e à sobrevivência dos seus.