A despeito da estrema importância com que se revestem as demonstrações contábeis, não há como negar o fato de que, para o público em geral, tais relatórios sejam de difícil compreensão, pois as informações ali apresentadas se limitam a retratar a posição econômico-financeira em determinada data, sem que, aparentemente, digam algo mais.
No entanto, a Ciência Contábil se desenvolveu de tal forma que os mecanismos necessários ao esclarecimento desses informes foram aperfeiçoados, e o que se configurava como tarefa extenuante, mesmo para os profissionais da área, tornou-se acessível, ao menos, ao público portador de noções em finanças empresariais, principalmente, com a adoção de indicadores para análise.
Ora, é pouco provável que algum interessado conseguisse realizar inferências significativas com a informação de que, por exemplo, dada empresa apresenta o montante de "R$ 100.000,00" como recursos realizáveis (Ativo Circulante e Ativo Realizável a Longo Prazo).
Contudo, se, paralelamente a esse conhecimento, estivesse informado de que há importâncias exigíveis (Passivo Circulante e Passivo Exigível a Longo Prazo) de, por exemplo, "R$ 80.000,00", então ser-lhe-ia possível deduzir que, em termos gerais, há um excesso de recursos realizáveis da ordem de "R$ 20.000,00", ou seja, que a empresa dispõe de "R$ 1,25" para cada "R$ 1,00" do exigível, caracterizando um quadro de relativa folga financeira.
Para realização de análise das demonstrações contábeis alguns procedimentos devem ser observados, cabendo destaque à importância da revisão dos relatórios para identificação do nível de qualidade das informações, à necessidade de reclassificações, e à escolha dos indicadores que melhor representem a condição do Patrimônio alvo dos exames.
A reclassificação de contas é indispensável ao processo de análise para que se identifique corretamente a posição patrimonial da empresa, com ênfase na essência sobre a forma, como ocorre, por exemplo, quando são transferidas as "despesas antecipadas" para a conta geral de "lucros ou prejuízos acumulados" e as "duplicatas descontadas" para o grupo de "empréstimos e financiamentos a pagar".
Há áreas consideradas de risco na contabilidade, as quais merecem atenção especial por parte do examinador, devendo este, dentre outros procedimentos, se certificar de que os estoques estão adequadamente representados e de que a sistemática de custeio, além de satisfazer às necessidades gerenciais, está alinhada com a legislação que rege a matéria.
Analogamente, precisará se assegurar de que a empresa é proficiente na adoção de técnicas que evidenciem a informação sobre a vida útil econômica dos bens em utilização, porque se tiver incorrido em desvios na determinação do encargo de depreciação, amortização ou exaustão, conforme o caso, a mensuração dos resultados e de sua posição patrimonial estará comprometida.
Em princípio, bastará ao analista compreender que a apuração deste encargo se dá a partir da identificação do prazo relativo à vida útil econômica do ativo e de seu valor residual, pois a taxa incide sobre a parcela líquida do bem, devendo ser distribuída ao longo daquele período.
Nos exames, precisará considerar que este procedimento não está restrito aos bens integrantes do imobilizado, visto que pode atingir também, em função do caso concreto, ativos classificados como investimentos, intangíveis e diferido.
Seguro de que as demonstrações contábeis, de fato, evidenciam a real condição do patrimônio da empresa, deverá identificar a participação do item em relação ao grupo por ele integrado (análise vertical), bem como comparar a situação atual com a que caracterizou o período anterior (análise horizontal), com o objetivo de monitorar sua relevância e variação, respectivamente.
Ao lado destas análises, há indicadores que demonstram, por exemplo, o prazo médio das vendas e das compras e o giro do estoque e do ativo, possibilitando que sejam desvendados os ciclos operacional e financeiro da empresa, a mensuração das necessidades de capital de giro, o grau de alavancagem, etc.
Sem que sejam exclusivos, como se depreende do que foi apontado, cabe destacar alguns dos principais indicadores que se consagraram nas análises, tendo sido, inclusive, recepcionados por parcela expressiva de processos licitatórios lançados por agentes governamentais:
a) Estrutura de Capitais
- Participação de Capitais de Terceiros
Capital de Terceiros (Exigível Total) / Patrimônio Líquido
- Composição do Endividamento
Passivo Circulante / Capital de Terceiros
- Imobilização do Patrimônio Líquido
Ativo Permanente / Patrimônio Líquido
b) Liquidez
- Liquidez Geral
Realizável / Exigível
- Liquidez Corrente
Ativo Circulante / Passivo Circulante
- Liquidez Seca
Realizável (de maior liquidez) / Passivo Circulante
c) Rentabilidade
- Rentabilidade do Ativo
Lucro Líquido / Ativo Total (médio)
- Rentabilidade do Patrimônio Líquido
Lucro Líquido / Patrimônio Líquido (médio)
- Rentabilidade do Capital Social
Lucro Líquido / Capital Social (médio)
- Margem Bruta
Lucro Bruto / Receita Bruta
- Margem Líquida
Lucro Líquido / Receita Bruta
Como a atividade empresarial é um evento dinâmico, o interessado em avaliá-la deverá superar a noção de que um conjunto de fórmulas é tudo de que precisa, visto que, se assim não o fizer, poderá concluir equivocadamente sobre a condição dos negócios, tornando-se presa fácil nas mãos de predadores.
É importante o destaque de que os indicadores de análise, para que adquiram relevância, devem ser considerados em conjunto com as séries históricas apresentadas pela própria empresa e com os índices apurados pelo setor em que atua, pois, sem parâmetros consistentes de comparação, embora demonstrem a trajetória, os índices serão insuficientes para identificar o grau de eficácia administrativa.
Assim, o que determinará o nível em que determinado indicador deve se situar, para que se caracterize como satisfatório, será sua correlação com o planejamento realizado pelo gestor, consideradas as peculiaridades de cada segmento, visto que um mesmo resultado poderá adquirir significados completamente distintos em função da empresa e do momento ao qual se refira.