O mercado dinâmico e exigente tem conduzido os empreendedores e profissionais a um estado de perplexidade tal que muitos acabam por ultrapassar o limiar do desamparo, entregando-se a métodos, nem sempre louváveis, apresentados como representantes de modelos fundados na inovação e criatividade. De certa forma, é normal o surgimento de propostas às vezes extravagantes, pois, desde que os conhecimentos mercadológicos assumiram a condição de científicos, sua difusão possibilitou o acesso a princípios que estimulam no público-alvo os hábitos visados pelos estrategistas. A gestão empresarial já esteve sob o primado da inteligência intelectual, proposta centrada na uso de testes para determinação do quociente que evidenciasse o potencial analítico do indivíduo, de forma a que os problemas objetivos das organizações fossem adequadamente tratados. Com a adesão de parcela expressiva do empresariado, foi conseqüente o aperfeiçoamento do modelo e, assim, entrou em cena a inteligência emocional, preconizando, em linhas gerais, que no humano predomina a emoção e que a razão vem somente depois de um processo marcado pela paixão, empatia e compaixão. Segundo esta escola, o segredo para o desempenho superior é a integração das inteligências emocional e intelectual. Justamente quando tudo parecia estar bem encaminhado, com os profissionais e empresários engajados em programas de aprimoramento do potencial humano, pautando-se pela leitura integradora que promovia junto às equipes o amadurecimento de seus recursos, emerge a inteligência espiritual, abordagem que prenuncia o caminho de redenção para as organizações, por meio da sinergia que seus pressupostos estariam habilitados a desencadear. Sua contribuição efetiva ainda é incipiente, entretanto tem abalado os métodos convencionais de gestão dos recursos humanos e dos empreendimentos em sentido amplo ao enunciar que a empresa do futuro é uma empresa espiritualizada, um negócio do qual seus partícipes estão cientes da preponderância do "fator Deus" na coesão da equipe e na excelência direcionada ao mercado. Seus precursores têm advogado que o indivíduo dotado de inteligência espiritual se revelaria em atitudes caracterizadas por entusiasmo, comprometimento, respeito, confiança, sinceridade, resiliência e solicitude, dentre outras. É inquestionável a importância de tais premissas no contexto das relações humanas, contudo um exame acurado demonstrará que, em vez de serem prerrogativas exclusivas de um grupo em particular, pertencem potencialmente a todos, bastando à sua manifestação que o indivíduo assuma a atitude adequada, ou seja, que se reconheça como responsável por um conjunto específico de circunstâncias, visto que sua participação nos acontecimentos desencadearia efeitos variados. Não é tão difícil a percepção de que a essência do desempenho superior não decorre, necessariamente, de um ou de outro tipo de inteligência e, sim, da ação humana, a qual, respeitadas as peculiaridades dos indivíduos, contempla os conceitos vinculados às abordagens intelectual, emocional e espiritual. De fato, nunca foi tão expressivo o clamor por maior espiritualidade no ambiente organizacional e, ao que tudo indica, tal movimento surge em decorrência da ineficácia de antigas estruturas diante da nova realidade: responsabilidade sócio-ambiental; internacionalização das relações comerciais e de trabalho; revolução tecnológica; instabilidade da economia mundial; etc. Sem entrar no mérito das discussões em torno do "ponto Deus" no cérebro humano, as quais estão longe de ser equacionadas, mesmo entre os neurologistas que se debruçam sobre o tema, há que se reconhecer que o momento é ímpar para estas reflexões, pois inúmeros conflitos que, inclusive, extrapolam o ambiente empresarial podem ser sanados pela adoção de uma postura realmente humana, em outros termos, com respeito e diálogo, com ética e responsabilidade, independentemente da denominação que se lhe atribua. Aspecto de suma importância na abordagem da inteligência espiritual, sem que lhe seja exclusiva, é que, analogamente ao ensino de uma antiga lição eclesiástica, de nada adiantaria ao indivíduo apenas ostentar a espiritualidade. Vital é tê-la em essência, ou seja, entre o "ser" e o "parecer", o primeiro, indiscutivelmente. Como seria ingenuidade afirmar que a empresa dotada desta inteligência (por força dos indivíduos que nela atuam) assume indubitavelmente a vanguarda em seu meio, limito-me a reconhecer o seu potencial competitivo, pois o que é seguro é que, assim revestida, conquistará o seu espaço com menor desgaste, podendo festejar os marcos estabelecidos ao longo de sua jornada.
Inteligência espiritual nos negócios
Ariovaldo Esgoti
03/11/2008