Quem já teve a oportunidade de acompanhar, ainda que parcialmente, o trabalho de uma companhia de teatro compreende que para que o público tenha alguns preciosos minutos de encanto é preciso um treinamento intenso, o qual poderá até se aproximar do limiar da exaustão, tamanha a seriedade com que a trupe encararia o seu ofício. Na realidade, esta atitude revela a extensão do respeito dispensado à platéia, a qual, despojada de suas preocupações, rende-se aos momentos em que será tomada por uma admiração inexprimível. Naturalmente, para que a performance destes genuínos artistas alcance tal nível de eficácia é preciso superar as tentações que se escondem em atitudes aparentemente comuns, embora prejudiciais, como, por exemplo, altivez e ganância, dentre tantos outros adversários de um caráter sóbrio. Lembro-me com alegria do exemplo de um dos grandes mestres da antiga escola ao comentar sobre sua leitura acerca do profissionalismo nesta área nem sempre valorizada: "o verdadeiro ator não representa, apenas; ele encarna a personagem, tornando-se sua criação"... Os estudos sobre os papéis que cada ser humano assume ao longo de sua jornada já renderam páginas e mais páginas de pesquisas e reflexões, além de discussões acaloradas e invariavelmente desprovidas de atrativos para o grande público, razão esta de seu confinamento aos círculos especializados. Contudo, mesmo um exame superficial do tema possibilitará o acesso a recursos que podem se revelar muito preciosos no entendimento de fenômenos que por vezes assolam o mais preparado dos mortais. Um exemplo relevante do que a realidade tem descortinado é a crise pela qual passam vários dos agentes de mercado, muitos dos quais, demonstrando uma resistência ímpar em acreditar que após o início do ato haja somente uma saída: a responsabilidade pelos papéis dos quais se apropriaram. De fato, fingir-se de morto ou espernear será contraproducente e, longe de conduzir ao termo da apresentação, ridicularizaria a platéia e todos quantos apostaram no talento de seus principais nomes. Igualmente, seria de pouca ajuda encampar uma fuga alucinada, abandonando o palco, pois decisões desta natureza têm o dom de realizar prejuízos, implicando na absorção de perdas que somente se materializam diante de decisões insensatas. Colocadas estas observações, o que deverá fazer o executivo, o empreendedor, já que o espetáculo está em curso e o segundo ato, em regra, é uma grande incógnita? Há que se considerar que, no teatro, os atores entram em cena cientes do que se espera deles e, claro, com domínio de seus papéis. Distanciam-se dos amadores ao aprenderem a gerir os riscos a que todos estão sujeitos, como devem fazê-lo os demais, independentemente do campo de atuação. No mundo real, a despeito das noções que permitam desvendar os critérios mais adequados à apreensão da realidade, os papéis são dinâmicos, atualizando-se constantemente. A maturidade é um imperativo. A responsabilidade é requisito essencial. Em outros termos, é fundamental a compreensão de que a norma é a variabilidade e que, por isso, o perfil apropriado à interação com o ambiente caótico que a sociedade elaborou é o que integre inteligência, criatividade e caráter elevado, dentre outros traços que conduzam os agentes à condição de astros do show business da iniciativa privada.
Reflexões sobre a essência de uma crise
Ariovaldo Esgoti
24/11/2008