Auto-engano, a natureza pede passagem


Com este artigo, tenciono ampliar o leque de opções que vinha utilizando para escolha da temática, postura que encontra justificativa entre um de meus principais objetivos ao idealizar este espaço: fornecer material de reflexão acerca de temas que se relacionem direta ou indiretamente com as políticas de gestão. A posição assumida de iniciá-lo assim é muito apropriada para o que pretendo, pois, de certa forma, revela um pouco mais de meu mundo interior. Devo destacar que o projeto se viabilizou, particularmente, por meio de uma das convicções que têm me estimulado: a de que o meu alvo é melhorar o ambiente empresarial. Contudo, um olhar mais atento revelará que o centro de minhas ponderações, exceto pelas leituras normativas que se tornaram prementes, afinal o ofício exige alguns cuidados, é o fator humano, o indivíduo, mesmo. Neste sentido, é particularmente reveladora a busca de um paralelo entre este universo e os mecanismos dos quais tenho lançado mão para implementar as estratégias idealizadas. O exame do processo me leva à constatação de que são enormes as semelhanças com o modus operandi de vários dos profissionais das mais diversas áreas: vislumbrado o fim, é imperativa a justificação plausível dos meios que possibilitarão o cumprimento da meta. Posso tomar como exemplo a elaboração de um plano de negócios. São coletados dados estratégicos para identificar as características apresentadas pelos ambientes interno e externo (condição, alvo, tecnologia, recursos, etc.), além de definidos os padrões que deverão nortear a empreita (critérios e orçamentos, dentre outros). Em regra, mesmo que instintivamente, nos esmeramos por identificar as razões que amparam nossos procedimentos ou revelam a grandiosidade de nossa missão, viabilizando, aos nossos olhos e aos de outros, os projetos eleitos. Porém, é preciso reconhecer que, por mais sofisticados que sejam os planos, eles possuem taxas elevadas de risco de ineficácia, a despeito da possibilidade de serem defendidos fundamentada e acaloradamente. Estou ciente de que tal experiência, por si, não nos coloca, necessariamente, diante de uma tese, segundo o rigor da metodologia científica, entretanto, parece-me suficiente para nos despertar para uma das facetas que o ser humano apresenta desde tempos remotos: a arte do auto-engano. Dentre as possibilidades conceituais, o engano pode ser definido como "artifício empregado para indução ao erro" (Houaiss), e, no caso apresentado, diz respeito à atitude do indivíduo em relação a si mesmo, atitude esta que poderá ser consciente ou não. Retornando à elaboração do projeto, tente imaginar a cena: um empreendedor se apresenta a investidores potenciais para demonstração do plano de negócios, titubeando em pontos críticos. Qual seria a provável reação da platéia? Creio que não haveria surpresa alguma se rejeitassem de saída o programa, afinal, se nem o idealizador comprou o esquema, é improvável que alguém mais o fizesse. Compare com outro cenário: a apresentação é desenvolvida com segurança, todos os pontos relevantes são adequadamente esclarecidos, há farto material comprobatório de sua viabilidade. Potencialmente, trata-se de projeto análogo, mas aqui a probabilidade é a de aprovação praticamente unânime. Então, como é possível que uma mesma oportunidade exponha resultados tão contrastantes? De fato, é simples, ao menos, nesta conjectura, o primeiro não se convenceu da propriedade de suas idéias, ainda que a consistência fosse superior à do segundo. Por sua vez, este revela convicção sobre os prováveis resultados, encantando a todos. Isto me faz retomar uma idéia lançada em outra ocasião: a qualidade da interpretação de nossos papéis. Se seguirmos a lição do mestre, encarnaremos o personagem, revelaremos convicção em cada passo. Note que não se trata de tentar se iludir, pois, se fosse este o caso, a farsa seria facilmente detectável. A convicção legítima decorre da crença na correção dos procedimentos acatados, revelando um senso de ética contagiante. Estou ciente de que não expus nenhuma teoria fabulosa, pois, como mencionei no início, trabalho com a reflexão, entendendo que é dispensável focalizar conceitos inéditos. Invariavelmente, o comum e o simples ocultam lições de uma profundidade admirável. Todavia, concluindo esta breve reflexão, parece-me oportuno destacar que nossa comunicação é eficaz quando falamos a verdade, e que falamos a verdade quando acreditamos piamente em nossas mentiras.



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