Aprecio sobremodo a habilidade que alguns indivíduos aprimoram com esmero: o espírito cético. E isto por uma razão que julgo muito especial: aquele que domina a arte da dúvida tem, potencialmente, maior probabilidade de se esquivar das investidas de pessoas mal intencionadas - aquelas que são movidas por objetivos escusos e andam a espreita de uma oportunidade para espoliar sua vítima. Um rápido exame em nosso meio já será suficiente para nos revelar um fato incontestável: em cada esquina ou, mais apropriadamente, dentro e fora de nossas principais instituições (família, sociedade, governo, etc.) os mercenários estão instalados com um único propósito, o de serem agentes da própria sorte, principalmente se puderem se sobressair às nossas custas. Diante do caos que tentam provocar, podemos assumir uma de duas posturas básicas, enfrentamos a situação, dando um basta, ou ignoramos os seus passos para que, oxalá desistam de seus estratagemas. Isto, pressupondo que estamos conscientes de sua atuação, porque, se não o estivermos, nossa maior dificuldade talvez seja a de decidir entre um ou outro dos canais televisivos ou, ainda, entre as opções que os lojistas nos apresentam. Antes que surjam protestos, previno: sou um otimista e, no geral, incorrigível. Mas, preciso esclarecer sobre o que compreendo por otimismo. Em minha experiência, o otimismo se manifesta mediante a convicção sobre as possibilidades que permeiam nossa vida, o que nos induziria ao esforço máximo em quaisquer situações, sem que, contudo, desprezássemos a luz que emana da realidade. Por mais estranho que pareça, a máxima "creio porque é absurdo" está de tal modo disseminada em nossa cultura que, sob o pretexto de uma condição superior, muitos se esquecem de uma lição elementar: "as aparências enganam". Os custos de tal equívoco podem ser expressivos: projetos abortados, recursos desperdiçados e potenciais subavaliados, dentre tantos outros. Considere como exemplo o planejamento, seja de uma carreira, de um empreendimento econômico, ou de determinado projeto. Sua elaboração deve obedecer a algumas regras bem conhecidas daqueles que dominam a temática. As pesquisas e estimativas realizadas devem primar pela acurácia, isto é fato. Entretanto, por mais brilhante que seja sua apresentação, será, no mínimo, ingenuidade crer que os acontecimentos seguirão naturalmente o plano, pois o dinamismo inerente à realidade, em regra, nos brinda com surpresas que, se não forem recepcionadas de forma adequada, podem produzir impactos extremamente indesejáveis. Não tenho como deixar de reconhecer que os maiores problemas que acometem os empreendimentos, tomados em sentido amplo, advêm de um dos prováveis resultados: o plano é atingido ou o alvo é deflagrado. O primeiro porque, com o tempo, nos leva a acreditar que poderemos sempre repetir o feito. O segundo, inversamente, por nos estigmatizar, privando-nos de iniciativa para uma nova batalha. Em quaisquer das hipóteses poderemos ser atingidos facilmente por indivíduos interesseiros. Durante o êxito, pela adulação que, se ignorada, nos levaria a contar com alguém que jamais esteve ao nosso lado, de fato. No fracasso, pelo abandono, às vezes, até justificado com algumas pérolas: retirada estratégica; reposicionamento mercadológico; revisão de tendências; etc. Como a tentativa de fuga, além de não modificar a realidade, podendo, no máximo, mascará-la, conserva-nos como presas potenciais dos espoliadores, concebo como plausível o enfrentamento, ou seja, em vez de acreditar cegamente nas lorotas com que nos brindam, devemos agir como o bom mineiro: manter um dos olhos bem abertos enquanto dormimos.
A noção de realidade em xeque
Ariovaldo Esgoti
08/12/2008