Não estou certo sobre exatamente quando passei a me interessar pelo estudo da natureza humana, mas recordo-me de que na adolescência já examinava quaisquer obras que abordassem a temática, especialmente, quando o viés utilizado era o da psicologia e, naquele período, a comportamental. É bem verdade que hoje meu interesse recai sobre o universo empresarial. Compreender o que promove a eficácia do processo decisório tem sido uma atividade extremamente desafiadora. Contudo, naquela fase da vida eu seguia uma impressão intuitiva, a de que se apreendesse os mistérios da psique conseguiria controlar o meu mundo e, talvez, o de outros. Admirável fase da vida: em regra, quase tudo era permeado pela magia. Naturalmente, a magia da descoberta. Afinal, valia a máxima que se depreendia das lições de Francis Bacon: conhecimento é poder. Também tenho dificuldade para precisar a extensão do material estudado ao longo desses anos, embora, reconhecidamente, tenha me defrontado com obras valiosas, visto terem lançado luz sobre vários conceitos importantes, e outras que serviram apenas para demonstrar que seus autores não compreendiam ou não respeitavam o valor do tempo de seus incautos leitores. Em meio ao oceano de publicações à disposição dos interessados na temática, várias delas de expressiva qualidade, destaco um trabalho que chamou minha atenção pela sobriedade, uma das principais referências de Martin E. P. Seligman, editada em língua portuguesa pela Best Seller: Aprenda a ser otimista. O autor é expoente de uma área do conhecimento humano que tem conquistado adeptos, inclusive das academias, pelo mundo afora: a Psicologia Positiva, abordagem que, mantendo-se fiel à premissa que move esta Ciência, procura reorientar o indivíduo para lhe conferir os recursos indispensáveis à vivência responsável, à maturidade, mesmo. Ao examinarmos nossas estruturas sociais, é impossível deixar de reconhecer que, com algumas variações de intensidade, há, basicamente, dois grupos: os otimistas e os pessimistas. A despeito da classificação, devo ressaltar que não há otimistas ou pessimistas que o sejam exclusivamente. Em outros termos, todos passam por momentos na vida em que uma ou outra característica se sobressai, embora possa ser apresentada a tendência de ancoragem em numa delas: Uma característica definidora dos pessimistas é a sua tendência a acreditar que as vicissitudes são irremovíveis, que minam insidiosamente todas as suas atividades e que são os únicos responsáveis por elas. Já os otimistas, sujeitos aos mesmos trancos deste mundo, encaram o infortúnio de maneira oposta, Acreditam geralmente que um insucesso é apenas um contratempo passageiro, que as causas se restringem ao caso em questão. Os otimistas não se julgam culpados de eventuais malogros: acham que são provocados por circunstâncias desfavoráveis, falta de sorte ocasional, ou outras pessoas. Os reveses não abalam sua estrutura; confrontados com uma situação adversa, enfrentam-na como um desafio a ser vencido com redobrado empenho. (SELIGMAN, 2005, p. 27) Tal leitura nos possibilita a percepção de que, se adequadamente dominada a técnica do que, no contexto do pensamento de Seligman, poderia ser denominado de otimismo aprendido, ampliaríamos de forma sensível nossos recursos para o processo decisório, possivelmente, facilitando a transição para modelos de gestão mais apropriados aos tempos de turbulência globalizada. O quanto mais cedo percebermos que há eventos que podem ser alterados e outros que, a despeito de nossas tentativas, não apenas não avançarão como poderão ser agravados, melhor será, pois ao gestor não é conferido o direito de errar, já que o erro poderá, literalmente, arrasar impérios. Não estou sugerindo que os indivíduos devam ser invulneráveis aos equívocos potenciais que nos rodeiam, mas que a diferença está em poder interpretar os fatos de forma a serem suplantados os desafios que cada experiência desvenda, visto que, em si, nada é bom ou ruim, nossas decisões, ou melhor, o impacto delas, é que nos deixarão com uma ou outra impressão, influindo decisivamente no curso de nossas vidas. Resguardados os casos patológicos que tornam imperativa a intervenção especializada, no fundo, a situação poderia se resumir em uma escolha: o otimismo, ao lado do destemor, ou o pessimismo, companheiro inseparável da depressão. Entretanto, não podemos perder de vista o alerta apresentado por Seligman: É uma idéia perturbadora a de que pessoas deprimidas são capazes de ver a realidade corretamente enquanto outras não-deprimidas distorcem a realidade de acordo com suas conveniências. Como terapeuta, ensinaram-me que a minha obrigação é ajudar os pacientes deprimidos a se sentirem ao mesmo tempo mais felizes e a verem o mundo mais claramente. Espera-se que eu seja o agente da felicidade e da verdade. Mas é possível que a verdade e a felicidade sejam valores antagônicos. Talvez o que tenhamos considerado como boa terapia para um paciente deprimido apenas contribua para alimentar ilusões benignas, fazendo com que ele pense que o mundo seja melhor do que verdadeiramente é. (SELIGMAN, 2005, p. 154-155) É desconcertante ter que admitir a coerência deste argumento, o qual em sua obra vem acompanhado de fartas evidências. Felicidade e ilusão, neste sentido, são faces de uma mesma moeda. Então, o que seria melhor, a realidade sombria ou o porto aprazível do imaginário? Sabiamente, o autor responderia: depende do caso concreto. Afinal, o ser humano possui ambos os recursos e deles deverá lançar mão sempre que for necessário. É isto mesmo, embora o otimismo seja muito importante para a condução de certos projetos, há ocasiões em que sua utilização poderia gerar enormes malefícios. Observe sua orientação: Se está empenhado numa situação de realização (conseguir uma promoção, redigir um relatório difícil, ganhar um jogo), use otimismo. Se está preocupado com a maneira como se sentirá (combatendo a depressão, mantendo o moral), use o otimismo. Se a situação puder se prolongar e sua saúde física estiver em jogo, use otimismo. Se quer liderar, servir de exemplo para os outros, que votem em você, use otimismo... Se o seu objetivo é planejar um futuro arriscado e incerto, não use otimismo. Se o seu objetivo é aconselhar pessoas cujo futuro é obscuro, não use otimismo inicialmente. Se quer mostrar-se solidário com os problemas alheios, não comece com otimismo, embora possa utilizá-lo mais tarde, uma vez que a confiança e a empatia tenham sido estabelecidas. (SELIGMAN, 2005, p. 281) Há muito mais a ser dito, mas, além de o espaço ser inadequado, não o privarei da leitura diretamente junto à produção do autor citado. Assim, concluo com o destaque de que, embora apreciemos sobremaneira a contraposição de conceitos, a vida não pode ser resumida entre o se assumir como oito ou oitenta e, sim, na assunção do equilíbrio que advém de uma percepção permeada pela lucidez.
Reconciliando otimismo e pessimismo
Ariovaldo Esgoti
29/12/2008