Autorreflexão, a arte de (re)pensar-se


Este artigo cumpre uma missão interessante: dá continuidade ao movimento que prazerosamente abracei, o de refletir sobre o universo pessoal, relacionando-o sempre que possível ao contexto profissional, e permite-me um primeiro contato formal com as novas regras ortográficas, opção esta que me exporá ao risco de levar alguns escorregões. Apesar disso, como consagrou a sabedoria popular: quem não quer correr riscos não quer, de fato, viver. Como mortal que sou, comemoro nossos períodos festivos, envolvo-me com o clima da troca de presentes e, naturalmente, passo em revista meus planos. Contudo, não consigo escapar de uma certa dose de perplexidade com a atitude de algumas pessoas, as quais julgam que a passagem de ano, por si, seria suficiente para resolver uma série de problemas, conferindo sentido à vida. Não me refiro simplesmente à importância do planejamento ou da imprescindibilidade de sua execução, mas à crença de que, por exemplo, o tempo existe fora do sujeito e que ao ir embora um ano, por assim dizer, o terreno ficaria preparado para realizações de toda sorte ou, no caso, de alguém que se encontrasse desmotivado, para uma potencial avalanche de infortúnios. Além da habitual celebração, nos acostumamos a verbalizar algumas aspirações: Que o novo ano nos traga saúde, paz e felicidade! Que o mundo adote atitudes mais éticas! Que as pessoas aprendam a cuidar do meio ambiente! Que nossos governantes implantem medidas de promoção de maior justiça social! E por aí vai... Agora, reflita por alguns instantes: O que é ter saúde, paz e felicidade? O que é atitude ética ou ser ético ou, ainda, mais precisamente, o que é a ética? O que é justiça? O que é o tempo? Seria muita pretensão de minha parte tentar esclarecer estes e outros temas de natureza filosófica. Certamente, não é meu objetivo aqui, até porque a minha compreensão sobre os tais não se ajustaria, necessariamente, a todos, paralelamente à inadequação deste espaço. Porém há algo que está ao meu alcance promover, trazendo à baila a importância da filosofia, a qual, segundo Lou Marinoff (2008, p. 21), na obra "Mais Platão, menos Prozac": está reconquistando a sua legitimidade como um meio útil de examinar o mundo à nossa volta enquanto o universo nos abastece de novos mistérios, a uma velocidade que torna impossível à teologia ou à ciência harmonizar os enigmas existentes. Bertrand Russell caracterizou a filosofia como "algo intermediário entre a teologia e a ciência... uma terra de ninguém, exposta ao ataque dos dois lados". Mas a vantagem dessa avaliação pertinente da desvantagem é que a filosofia pode usar as forças dos dois lados sem ter de absorver os dogmas ou as fraquezas de nenhum dos dois. Dentre as possibilidades, essencialmente, filosofar implica em meditar ou discorrer sobre questões e problemas filosóficos (Dicionário Houaiss), os quais, por sua vez, remetem à investigação sobre a essência das coisas, neste plano, mesmo as imateriais, como, por exemplo, os temas citados: paz, felicidade, ética, justiça, tempo, etc. Até que ponto estamos realmente conscientes de que estamos vivos? O que é a vida? Por que vivemos? Há formas melhores de se viver? Qual o sentido da vida? É possível conferir sentido e prazer à vida? Como? E assim por diante... No ambiente empresarial a situação é muito próxima à apresentada, considere o seguinte: O que é empresa? O que é equipe? O que é preço justo? O que é ética nos negócios? O que é concorrência leal? O que é viabilidade? Aqui, outras questões poderiam também ser propostas... Se prestarmos atenção, constataremos que o pensar filosoficamente é algo que permeia nossa vida. Nos utilizamos dessa metodologia em inúmeras ocasiões. Na realidade, ela nos acompanha desde antes de nos entendermos por pessoas. Os famosos "por quês" da infância... Mesmo diante da tentativa de monopólio desta forma de conhecimento por parte da academia, o fato é que temos diante de nós um recurso extremamente valioso e acessível para a solução de inúmeros dos desafios apresentados pela vida. Assim, observe o esclarecimento de Marinoff (2008, p. 23-24): O beneficio da sabedoria de séculos não depende de modo algum de um Ph.D., ou algo no gênero. Afinal, não é preciso estudar biofísica para caminhar, estudar engenharia para armar uma barraca ou economia para encontrar trabalho. Da mesma forma, não é preciso estudar filosofia para se levar uma vida melhor - mas talvez precise praticá-la. A verdade sobre a filosofia (e um segredo muito bem guardado) é que a maioria das pessoas pode fazer isso. A investigação filosófica nem mesmo requer um filósofo formado, apenas a disposição para abordar a questão em termos filosóficos. Não precisam sair e pagar alguém - embora possam se deleitar e aprender o processo com um profissional -, pois com um parceiro com a mesma disposição, ou até mesmo sozinhos, é possível conseguir isso em sua própria casa, numa cafeteria ou num shopping. Em plano análogo, há outra expressão consagrada por nossa tradição festiva: Ano novo, vida nova! E não tenho como deixar de reconhecer que traduz um significado de extrema profundidade. Para muitos, o simples conhecimento de que findou o ano problemático já é suficiente para o renascimento da alegria de viver, da renovação da esperança e dos propósitos. Não me parece muito difícil perceber que não é a passagem do tempo, seja o lá o que for que isso denote, que promove mudanças e sim a reflexão sobre o objeto de interesse do indivíduo. Reflexão esta que lhe permite atribuir novo significado aos eventos que o circundam, reestruturando, portanto, o planejamento de forma a contemplar as ações que, por si, poderão desencadear toda sorte de mudanças. Observando cautelosamente, iremos notar que o procedimento que usualmente utilizamos na reorganização de nossos projetos pode guardar sensível semelhança com o modelo proposto por Marinoff (2008, p. 58-60): Ao encarar filosoficamente uma questão, você precisa primeiro identificar o problema... Em segundo lugar, você deve avaliar cuidadosamente as emoções provocadas pelo problema... No terceiro passo, análise, você lista e avalia as opções para resolver o problema. Uma solução ideal resolverá tanto as questões externas (o problema) quanto às internas (as emoções despertadas pelo problema), mas nem sempre é realizável... No quarto estágio, você recuará um passo, ganhará uma certa perspectiva e contemplará a situação por inteiro. Nesse ponto, terá compartimentado cada um dos estágios para ter controle sobre eles. Mas agora exercitará todo o seu cérebro para integrá-los... Por fim, depois que articula o problema, expressa as suas emoções, analisa as suas opções e contempla uma posição filosófica, você alcança o equilíbrio. Compreende a essência do seu problema e está preparado para empreender a ação apropriada e justificável. Sente-se estável, mas está preparado para as inevitáveis mudanças que o aguardam. Todavia, convém expor a ressalva de que não há formulas infalíveis, embora sua apresentação didática possa ser benéfica até que alcancemos a compreensão do processo. A genuína filosofia guarda relativa distância das receitas de bolo. O que e como fazer são processos dinâmicos. Devem ser naturalmente atualizados diante das experiências do dia a dia. Em suma, destas breves linhas se depreende que a solução para os problemas humanos, quer sejam pessoais ou profissionais, ou de quaisquer outras esferas, não é encontrada na perpetuação de crenças irrefletidas ou em respostas formuladas por expertos e sim na propositura de questões objetivas sobre o indivíduo, aquilo que o cerca e o permeia. De fato, uma vida consagrada à autoinvestigação; se necessário, reinventando-se.



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