O termo mito comporta algumas possibilidades conceituais e, visando à simplificação do exame de sua essência, não farei remissões a abordagens que primem pelo rigor científico, afinal este espaço está voltado à reflexão de cunho pragmático, o que, contudo, não significa, necessariamente, que eu defenda a ausência de aplicabilidade à produção dos círculos especializados. Várias obras poderão ser consultadas sobre o tema, mas, para o caso de haver interesse na leitura de um esboço que compreenda os principais elementos envolvidos, recomendo a leitura do artigo que se encontra disponível na página da revista eletrônica "Mundo dos Filósofos", do qual destaco: Mito, é o relato de uma história verdadeira, ocorrida nos tempos dos princípios, quando com a interferência de entes sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o cosmo, ou tão-somente um fragmento, um monte, uma pedra, uma ilha, uma espécie animal ou vegetal, um comportamento humano. Mito é, pois, a narrativa de uma criação: conta-nos de que modo algo, que não era, começou a ser. O mito expressa o mundo e a realidade humana, mas cuja essência é efetivamente uma representação coletiva, que chegou até nós através de várias gerações. E, na medida em que pretende explicar o mundo e o homem, isto é, a complexidade do real, o mito não pode ser lógico: ao revés, é ilógico e irracional. (Rosana Madjarof - "Mito, Rito e Religião") Para o fim que tenho em perspectiva, convém, adicionalmente, examinar as noções sobre o termo mito que são apresentadas pelo Dicionário Houaiss: relato fantástico de tradição oral, geralmente protagonizado por seres que encarnam, sob forma simbólica, as forças da natureza e os aspectos gerais da condição humana; lenda, fábula, mitologia; narrativa acerca dos tempos heróicos, que geralmente guarda um fundo de verdade; relato simbólico, passado de geração em geração dentro de um grupo, que narra e explica a origem de determinado fenômeno, ser vivo, acidente geográfico, instituição, costume social etc; exposição alegórica de uma idéia qualquer, de uma doutrina ou teoria filosófica; fábula, alegoria... Acredito que a essência desses enunciados guarde maior proximidade com a forma como utilizarei a expressão, embora as demais previsões não estejam descartadas, visto que, parecendo ter vida própria, nem sempre, o texto segue o movimento pretendido pelo autor. Realizada esta digressão, tratarei do que, realmente, me trouxe aqui: a relação entre o mito e algumas das facetas da política de gestão adotada pelos setores público e privado, ou seja, o mito no dia-a-dia. Desde a intensificação dos impactos do fenômeno que pode ser denominado de crise econômica mundial, nosso representante máximo tem vindo a público para brindar-nos com suas preciosas lições de sabedoria, as quais, dentre outros, preconizaram que o país estaria imune aos efeitos do caos oriundo de outras nações, que os empresários não teriam razões para demitirem funcionários, que as medidas governamentais seriam suficientes para assegurar o emprego e o consumo, que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) colocaria o país na vanguarda do desenvolvimento econômico-social... Ao refletir sobre a situação, ocorreu-me uma hipótese: nosso governante deve ter sido um aluno dedicado na catequese. A razão para pensar assim é, relativamente, simples: a narrativa da criação, registrada no livro do Gênesis, no capítulo primeiro, parece confirmá-lo. Se bem me lembro daquelas aulas (também fui aluno assíduo; possivelmente sem o mesmo fervor do presidente), o Criador teria decretado algo semelhante a: "Haja luz". Praticamente qualquer criança, mesmo hoje, sabe o que aconteceu: "e houve luz"... "Ajuntem-se num só lugar as águas que estão debaixo do céu, e apareça a parte seca"... "E assim foi"... Reconheço que fui estimulado a realizar esta associação ao me deparar com o artigo de Vinícius Torres Freire publicado na Folha de São Paulo, edição de 14/01/2009, no caderno Dinheiro, cujo título - muito sugestivo - é "Empregos por decreto". Ali, o autor comenta de forma pitoresca algumas das tentativas frustradas do governo diante da crise econômica atual. Acabei estendendo o raciocínio. Nosso governante parece acreditar que decretos são suficientes para a promoção de mudanças: "Haja estabilidade no Brasil"... "Haja empregos"... "Que o mundo se curve ao poder da economia brasileira"... Se a premissa estiver correta, há um obstáculo intransponível: no caso do Gênesis, o decreto teria partido do próprio Criador, o que dispensa comentários adicionais. Como não me consta que nosso presidente seja portador de prerrogativas sobre-humanas, de fato, divinas, entendo que seus decretos não produzirão o resultado pretendido, exceto se vierem acompanhados de medidas efetivas de reestruturação das bases da economia brasileira. É bem provável que se suas ações, além de se desviarem de objetivos meramente eleitoreiros, estiverem pautadas em sóbrio e consistente planejamento, o que implicaria, até mesmo, em resgatar as análises sobre como viabilizar uma reforma tributária eficaz à sociedade como um todo, seja possível o país servir de referência mundial. Por mais absurdo que possa parecer, a abordagem mitológica contamina a leitura realizada por muitos atualmente. Neste sentido, o mercado é apresentado, invariavelmente, como sendo portador de virtudes divinas ou de vícios humanos. Tem vontade criadora; é onipotente e onisciente. Fica ora deprimido ora eufórico; tem crise de nervos; pode atentar contra a moral e os bons costumes... É fato que o setor privado não escapa deste problema. De um lado, encontramos empresas que parecem se situar em plano superior, de outro, estão as que passam por crise existencial; tomadas pela melancolia; impregnadas de singeleza; patologicamente altivas... Já o meio público, em especial, consegue ultrapassar os limites do razoável quando se vê como baluarte da justiça, alicerce da ética ou personificação do bem, pois se esquece, de forma análoga ao que ocorre com os demais agentes, que é formado por pessoas, na realidade, seres humanos que, a despeito da cultura adquirida, são mortalmente falíveis. Governo, mercado e empresas não são, por assim dizer, seres autônomos. Tudo aquilo que idealizam, querem, sentem e implementam depende completamente do que se passa com cada pessoa que os integram, a despeito das formalidades cabíveis. Em outros termos, tais entidades quando tomadas, por exemplo, pela corrupção não o serão em si mesmas. Isto implica em que, de fato, não há empresa ética, o que se verifica é a conduta ética por parte das pessoas que formam a ficção jurídica denominada de empresa. No fundo o que o relato mitológico faz é atribuir personalidade àquilo que nada é além de pura fantasia, eximindo, contudo, os autores das responsabilidades que lhes cabem, principalmente, quando a postura adotada provoca danos à sociedade. Seja por ação ou omissão, alguns acham mais fácil culpar o empresariado em geral do que observar o "dever jurídico resultante da violação de determinado direito" por indivíduos específicos. Devo reconhecer que as turbulências econômicas atuais têm tudo para serem superadas, pois a nação conta com recursos que foram aprimorados por décadas de aprendizagem, o que torna dispensável a invocação de entes fantásticos, como, em regra, acontece quando se julga que o mercado seja o grande vilão. Todavia a tarefa não é da responsabilidade de um único setor ou entidade. Diz respeito a todos. À iniciativa privada cabe o foco nas potencialidades do novo mercado, pois, como consagrou a filosofia, crises podem ser agentes de grandes oportunidades. É vital que as ações sejam pautadas por sabedoria e criatividade. Entretanto, não há como ser tolerada a passividade do Estado, visto que é o detentor do monopólio da implementação de políticas econômicas, dentre outras. Se necessário, a sociedade (organizada) deve exercer pressão para que os dirigentes incorporem um conjunto consistente de medidas para que o ajuste fiscal e a reforma tributária não se limitem à condição de expressões restritas à utopia. Em conclusão, por mais tentadora que seja a ideia da invocação de mitos na explicação da realidade, como nada esclarecem, é preferível enfrentar a verdade dos fatos, assumindo a responsabilidade que cabe a cada um no processo e tendo coragem suficiente para manter o silêncio diante de eventos momentaneamente incompreensíveis.
A linguagem mitológica no dia-a-dia
Ariovaldo Esgoti
19/01/2009