Os contatos mantidos com alguns dos participantes de cursos e treinamentos têm sido muito estimulantes. Invariavelmente tenho a oportunidade de reconhecer que quanto mais estudo um tema mais há para aprender a seu respeito. Até aí tudo normal. Como diriam alguns de meus principais mestres: quem tem a pretensão de ensinar, precisa "aprender a aprender". Embora possa parecer mero trocadilho, tenho em conta de fato que este enunciado encerra uma lição vital: em regra, a "soberba precede a ruína", já que encaminha sua presa rumo ao precipício. Entretanto, reconheço que não estava - se é que havia como fazê-lo - preparado para algumas surpresas decorrentes deste tipo de relacionamento, o que tem tornado a atividade ainda mais desafiadora: "o ser humano é capaz de invocar razões das quais a própria razão desconfiaria". O motivo de tal perplexidade é relativamente simples: a coexistência de leituras tão antagônicas em um espaço tão restrito, como, por exemplo, uma sala de aula, mesmo quando composta majoritariamente por profissionais em atuação no mercado. Daqueles com os quais me deparei, dois dos perfis em especial têm chamado minha atenção por se configurarem como profundamente instrutivos, ao menos, no que tange à minha experiência. Possuem a capacidade admirável de desencadear extensas reflexões sobre as prováveis consequências inerentes às atitudes que desvendam, e, como podem ser encontrados com relativa habitualidade, focalizá-los com consistência é tarefa em muito recompensadora. De um lado, está o grupo que, ao se deparar com o novo e suas complexas variâncias, rende-se ao estado de desamparo, desistindo cabalmente de quaisquer aspirações que remetam ao desconforto que mudanças costumam provocar. De outro, aquele que, em contato com as mesmas circunstâncias, compreende que o sofrimento transitório é desejável, pois é caminho para a descoberta, o crescimento, a maturidade... Ainda que intuitivamente, apreenderam o significado e, assim, a importância de saborear o dia - carpe diem. Dia desses, tive o privilégio de participar de um colóquio com dois dos diretores de uma empresa cliente, após a conclusão de um ciclo de treinamentos corporativos. Fiquei atônito diante do quadro que se desenrolou. A empresa em questão havia sido atingida frontalmente pelo impacto de algumas mudanças normativas, as quais, ao tocarem na forma como era aplicada a tributação de suas operações, desconfiguraram a estrutura de custeio, estabelecendo uma linha tênue entre receita, custo, despesa e lucro. Novamente, até aí tudo normal, ao menos, no que diz respeito ao desafio de empreender em um país como o nosso. O surpreendente foi embate que eclodiu da postura adotada pelos colegas. Em meio às tentativas, eu diria, até, um tanto quanto desesperadas, de buscar uma luz no fim do túnel, o primeiro procurava vislumbrar um porto, ainda que transitório, para preparar a reestruturação do empreendimento quando subitamente é interrompido pelo levante do segundo, o qual dispara sem hesitar: "estou convicto, esta luz é um trem-bala que vem em nossa direção". Não estou certo sobre se os termômetros convencionais dariam conta da temperatura do ambiente naquela ocasião, mas foi como se tivéssemos sido lançados por uma eternidade à região mais insólita do planeta. Sem dúvidas, uma daquelas experiências em que flashes de uma existência são rememorados numa fração de segundos. Concluído o desabafo, com enumeração de quase todos os infortúnios que adviriam das mudanças, a razão esboça sinais de vida, e o outro interlocutor, numa demonstração memorável de equilíbrio e sensatez, pontua: "crises podem ser prenúncio de oportunidades". Lugar comum? Talvez, mas fez diferença, e isto bastou, pois idéias criativas começaram a substituir aquele realismo do tipo pessimista. A julgar pela insistência do serviço de monitoramento eletrônico em se certificar de que tudo estava bem, ocorreu-me que havíamos adentrado à madrugada, o que me deixou com um problema em potencial, pois no outro dia, quer dizer, de manhã, naquele mesmo dia, eu tinha uma bela reunião logo no primeiro horário. Segurei-me por mais um pouco, até que meus companheiros percebessem que com algum descanso a produtividade seria superior e, finalmente, demos por encerrada aquela fase. Passadas algumas semanas, tive a oportunidade de retornar e me reunir com ambos. Nem foi preciso me preocupar com o risco de deixar transparecer minha curiosidade, porque estavam tão afoitos por compartilhar os eventos recentes que em uníssono dispararam: "revolução, revolução!". Gentilmente, pedi que não deixassem escapar nenhum detalhe, e assim se empenharam durante um agradabilíssimo café, do qual, aliás, sou fã incondicional; e, se for o expresso, então.
Reminiscências de um eterno aprendiz
Ariovaldo Esgoti
09/02/2009