O cotidiano em prosa, relações fortalecedoras


Talvez meus ouvidos estejam mais sensíveis a algumas melodias em decorrência de uma seletividade natural ou, quem sabe, seja o tempo me pregando uma peça, já que aquela criança que um dia atendeu pelo mesmo nome está, em certo sentido, desaparecendo no horizonte enquanto cresce a impressão de que, de fato, nunca se distanciou. Independentemente das prováveis causas de alguns dos eventos percebidos, duas ocorrências, que em outro contexto poderiam ter passado completamente indistintas, ganharam contornos especiais. A primeira, fruto de um contato aparentemente corriqueiro durante uma consultoria que coincidentemente não me dizia respeito. A segunda, durante um descontraído intercâmbio com colegas do dia-a-dia. Tais experiências tornaram-se muito marcantes, principalmente, porque provocaram a revisão de lições primorosas adquiridas ainda em tenra idade, as quais advêm do reencontro com Antoine Saint-exupéry (O Pequeno Príncipe) e com Eleanor Hodgman Porter (Pollyanna). Fiquei fascinado com a forma como emergiram. No primeiro caso, o diálogo gravitava em torno da ética como requisito à gestão pública, quando meu interlocutor expôs a cartilha privilegiada pela cultura política, notadamente a brasileira - O Príncipe, de Nicollau Maquiavel. Ao ouvir suas extensas considerações sobre a contradição evidenciada pelo governo central, o qual deveria retornar às noções de uma autêntica comuna, não resisti e, dominado por um senso de humor incomum, afirmei que melhor do que a ancoragem em O Príncipe seria a adoção dos preceitos de O Pequeno Príncipe, pois o mundo já estava farto do despotismo. Embora admita que a conotação atual sobre o pensamento de Maquiavel possa guardar relativa distância do pretendido pelo autor, é fato que a tradição, ao consagrar a máxima de que "os fins justificam os meios", reescreveu o espírito deste clássico da literatura universal, embalando os sonhos de leitores desavisados e, não menos importante, de políticos incautos. No que concerne ao segundo caso, a paródia circundava as noções relativas ao fator sorte, ocasião em que pude presenciar o que bem poderia ser denominado de o renascimento de Pollyanna, em alusão à Fênix, a qual seria portadora do dom de ressurgir das cinzas. Em vez de simplesmente informar à minha interlocutora a mensagem que segundo pressupus seria de seu interesse, atrevi-me a indagar sobre o significado do fator sorte, buscando provocá-la por meio de uma analogia com a situação vivenciada. Para minha perplexidade, de entre os presentes eclodiu graciosamente o esclarecimento de que sorte era o estado em que se encontrava alguém que, tendo sofrido um terrível acidente, resistia o bastante para poder contar a história. Ainda que me esforçasse para não fazê-lo, era irrefreável a correlação com a imortal obra de Eleanor Porter, afinal, é muito difícil supor que alguém mais pudesse invocar razões para a manutenção da alegria diante de infortúnios dos mais variados do que a fabulosa Pollyanna. A despeito da aparente ingenuidade que ronda as noções de que nos tornamos eternamente responsáveis pelo que cativamos ou de que a infelicidade poderia ser suplantada por um faz-de-conta, é inegável que somos por elas instigados, no mínimo, ao questionamento dos valores que nos subjugam diariamente. Isto é imprescindível, visto que, resgatando um pensamento lançado em outra ocasião, em regra, o que nos atinge não é a realidade em si, mas as interpretações que nutrimos sobre o seu significado. O que não implica, necessariamente, em que, com a simples evocação de um mantra ou encanto, sejamos trasladados para o Nirvana. Nesta perspectiva, não pode prevalecer a inferência de que algo seja certo ou errado em si mesmo, devendo se sobressair o grau de consciência conquistado acerca do próprio observador e de seu objeto, bem como o nível de coerência apresentado pela comparação dos resultados com o plano estabelecido; espontaneamente, inseridos no contexto de um viver que prime pelo bem de todos, algo muito próximo ao que nos ensina a máxima kantiana (Fundamentação da Metafísica dos Costumes): a ação imbuída de um querer que lhe confere o status de lei universal.



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