É bem provável que um dos principais destinatários desta reflexão jamais venha a conhecer o seu conteúdo e isto, essencialmente, por dois motivos, o primeiro: Félix não caminha mais entre nós. Não posso deixar de reconhecer que sua ausência gera uma boa dose de desconforto, mas também é inegável que o nosso aqui e agora não é eterno. Desde que se tornou parte da família, ele demonstrou que era possuidor de um brilho que o distinguia dos demais. Sua necessidade especial (faltava-lhe um dos "punhos"), motivo pelo qual o cercávamos de cuidados (quem consegue resistir?), não o impediu de estabelecer os seus próprios limites desde cedo (ou seja, nenhum). Em particular, recordo-me da primeira vez em que se atreveu a subir em uma árvore. Pobrezinho, ficou pendurado e, por mais que tentasse, não conseguia descer. É possível rever a cena: sua mãe corre em seu auxílio e, carinhosamente, o coloca no solo, são e salvo. Ele não desistiu até que conseguisse a proeza de se lançar de um galho a outro com uma destreza que daria inveja a qualquer atleta. Na época, nossa maior preocupação era a de que se ele não se machucasse tudo estaria bem. Nem mesmo parávamos para pensar a respeito de quantos obstáculos ele superava diariamente. De fato, não dava tempo, as aventuras se multiplicavam em um ritmo muito intenso para nós... Já mais maduro, um pouco após a "aborrecência", um de seus grandes prazeres era cortejar em seara alheia, dito de outra forma, se meter em confusão. Evitava entrar em uma briga, só que se fosse provocado o suficiente... Houve outra ocasião, marcante: certo dia chegou em casa literalmente carregado e, com alguma dificuldade, percebemos que ele tinha uma fratura séria. A imagem foi a de um fêmur dilacerado... Nunca soubemos o real motivo do acidente. Criaturas abençoadas! Com o tempo se tornou mais sóbrio (ainda bem!). Chegou a desenvolver uma rotina genuinamente militar. De segunda a sexta, praticamente não nos víamos, como ele era um autêntico notívago (sua atividade o exigia), restáva-nos a convivência dos finais de semana. Saudosos, aliás! Dia desses, acidentalmente, esbarrei em alguns vídeos antigos. Não foi fácil conter a emoção de vê-lo em cena, expondo toda a sua exuberância. No geral, a tecnologia é boa, mas, em ocasiões como essa, abala o mais contido dos mortais... É impossível não pensar a respeito dos belíssimos momentos que desfrutamos, do companheirismo, das lições que nos ensinou e até das incompreensões que nos permearam (afinal, aqui é o planeta Terra, certo?). Se eu tivesse que destacar dois aspectos dele que nos marcaram profundamente, eu arriscaria: o olhar penetrante e, claro, a determinação. Esta, pela atitude precisa, algo muito próximo a um hiperfoco. Aquele, pela percepção, a qual me leva a associar conhecimento e intuição. Ao me voltar para o círculo com o qual interajo, sinto um misto de admiração e perplexidade. Vejo pessoas saudáveis incapazes de manter a concentração, desesperançadas, vagando sem rumo, titubeando diante dos desafios lançados pela vida, desperdiçando tempo e energia. Empreendedores de temporada, ao menor sinal de que o clima é desfavorável, abandonam sonhos acalentados por uma existência. Não percebem que a beleza, de certa forma, o sentido, está em manter a atenção no horizonte, compreendendo que a tempestade, por mais severa que seja, passará. Diariamente, me deparo com razões para reconhecer que a natureza não tem favoritos. Sobressaem-se aqueles que, tendo estabelecido um objetivo, optam por pagar o preço da superação. Não querem viver na mendicância. Adotam a atitude de construir e, se necessário, reconstruir o mundo em que desejam viver. Em outros termos, são genuinamente responsáveis. A propósito, o segundo motivo pelo qual creio que um dos principais destinatários desta reflexão jamais virá a conhecer o seu conteúdo é que Félix pertencia à família dos felídeos, ou seja, era nosso bichano de estimação... e pelo que me consta os felinos são incapazes de ler, seja nesta ou noutra vida... embora, haja quem duvide disso.
As lições de Félix o aventureiro
Ariovaldo Esgoti
09/03/2009