O Exemplo de Alice no País das Maravilhas


Não é por acidente que algumas obras atingem a condição de clássicos da literatura universal. Dentre as que se consagraram, lembro-me de uma em especial, a produzida por Lewis Carroll: "Alice no País das Maravilhas". O que as tornam admiráveis é que a despeito do tempo sua mensagem não se perde, e quando as revisitamos somos estimulados a reavaliar os conceitos e valores dos quais nos utilizamos no dia-a-dia. Nessa releitura, o cinema tem agido com maestria. Algumas produções estabeleceram uma espécie de segunda via, extrapolando as implicações da obra originária. Do clássico de Lewis Carroll, há um fragmento que desejo compartilhar: Para baixo na toca do coelho - Alice estava começando a ficar muito cansada de estar sentada ao lado de sua irmã e não ter nada para fazer: uma vez ou duas ela dava uma olhadinha no livro que a irmã lia, mas não havia figuras ou diálogos nele e "para que serve um livro", pensou Alice, "sem figuras nem diálogos"? Então, ela pensava consigo mesma (tão bem quanto era possível naquele dia quente que a deixava sonolenta e estúpida) se o prazer de fazer um colar de margaridas era mais forte do que o esforço de ter de levantar e colher as margaridas, quando subitamente um Coelho Branco com olhos cor-de-rosa passou correndo perto dela. Não havia nada de muito especial nisso, também Alice não achou muito fora do normal ouvir o Coelho dizer para si mesmo "Oh puxa! Oh puxa! Eu devo estar muito atrasado!" (quando ela pensou nisso depois, ocorreu-lhe que deveria ter achado estranho, mas na hora tudo parecia muito natural); mas, quando o Coelho tirou um relógio do bolso do colete, e olhou para ele, apressando-se a seguir, Alice pôs-se em pé e lhe passou a idéia pela mente como um relâmpago, que ela nunca vira antes um coelho com um bolso no colete e menos ainda com um relógio para tirar dele. Ardendo de curiosidade, ela correu pelo campo atrás dele, a tempo de vê-lo saltar para dentro de uma grande toca de coelho embaixo da cerca. No mesmo instante, Alice entrou atrás dele, sem pensar como faria para sair dali. A toca do coelho dava diretamente em um túnel, e então aprofundava-se repentinamente. Tão repentinamente que Alice não teve um momento sequer para pensar antes de já se encontrar caindo no que parecia ser bastante fundo (Capítulo 1)... Várias lições poderiam ser extraídas desta obra, contudo fiz esta opção porque a atitude de Alice ali exposta, ao inicialmente achar natural o que na realidade não o era, merece algumas considerações. Dentre as significações possíveis, segundo o Dicionário Houaiss: Natural - 1 que pertence ou se refere à natureza; 2 que é produzido pela natureza; 3 em que não ocorre trabalho nem intervenção humana; 4 que decorre normalmente da ordem regular das coisas... Tais noções são reveladoras particularmente quando avaliamos a reação de parte da sociedade brasileira diante da crise econômica que tem assolado o mundo. Alguns empresários agem como se as restrições enfrentadas em seus segmentos representassem o que poderíamos denominar de animus (espírito ou sentimento de franca hostilidade), deixando de esboçar o menor sinal de resistência ou de criatividade. Em paralelo, ao menos, uma parcela da classe trabalhadora, ao que tudo indica, permanece à espera de um salvador. Alguém que num passe de mágica resolva os problemas econômicos ou sociais da nação. Quanto mais cedo reconhecermos que nossas estruturas econômicas e sociais não são fenômenos da natureza e que, assim, são produtos da intervenção humana, melhor será. Nem sempre o que é natural pode ser modificado pelo ser humano, mas aquilo no qual intervém, embora possa se apresentar momentaneamente descontrolado, é perfeitamente passível de ajustamento para adequação às necessidades do meio. Sinto-me tentado a reconhecer que se fosse Alice em nosso lugar, em vez de achar natural ou simplesmente se lastimar com a má sorte, ela correria atrás da fera para estudá-la e, compreendendo-a, cumpriria a sua missão, a de viver com dignidade, sim, contudo, sem se deter diante do não-convencional. De fato, exerceria o seu domínio maravilhada.



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