A tradição oriental consagrou uma noção diferente da nossa, ao menos, em perspectiva filosófica, sobre o significado de eventos potencialmente catastróficos. Em regra, essa sabedoria estimula a consideração de que independentemente das manifestações que podem ser contempladas neste mundo, há uma realidade que ultrapassaria a dimensão fenomênica dos acontecimentos. Por esta perspectiva, se a realidade for mantida no centro das atenções, aquilo que não lhe é conforme daria lugar à ordem, visto que a ilusão tende a se desfazer quando a verdade é contemplada. Buscando se fundamentar neste tipo de percepção, páginas e mais páginas foram escritas com o intuito de disseminar tal crença, embora, talvez, pela falta de experiência direta ou apenas pelo desejo de se apoderar dos recursos de outrem fosse apresentada sua corruptela: a falsa noção de que só com o pensamento o mundo poderia ser transformar. Inegavelmente, é preciso crer na possibilidade de realização para que consigamos reunir um elevado nível motivacional e, assim, nos entreguemos com afinco à tarefa vislumbrada, ampliando a probabilidade de obtenção de resultado favorável. Contudo, nem mesmo o grau máximo de convicção acerca do êxito faria, necessariamente, com que profissões ou empreendimentos fora de sintonia com o mercado alcançassem credibilidade e, por extensão, o tão almejado sucesso. Se, por um lado, este desvio é prejudicial, o que dizer de sua antítese: a crença de que quando a crise bate à porta nada pode ser feito para contê-la? Não havendo perspectiva de mudança, não fará o menor sentido despender algum esforço em direção à possibilidade, até porque quando a sorte está lançada ou o jogo se dá com cartas marcadas todos os caminhos levariam a maior sofrimento. A primeira atitude pode induzir à falsa convicção de que o sucesso aguarda em cada esquina, estimulando o ato impulsivo, expondo vidas e patrimônios a riscos desnecessários, enquanto a segunda, inversamente, imobiliza, pois o fator dominante é a certeza de que não adiantará fazer nada, de que seria tudo perda de tempo. Os extremos são igualmente danosos. Ao que tudo indica, a saída pode estar na proposta inicial, visto que não há como negar que ao nos concentrarmos na solução de nossos problemas nossa percepção é ampliada e que com o novo estado de consciência passamos a contar com mais recursos internos para que os desafios sejam enfrentados. Agora, isto não significa que as crises serão resolvidas apenas com a força do pensamento, da prece, do mantra, da conjuração ou de quaisquer artes mágicas. O fato é que a descoberta somente ocorre quando alguém se dedica de corpo e alma ao seu intento. O que implica em que o foco adequado seja mantido pelo tempo necessário. Em termos objetivos, na óptica do empresário, se o mercado se tornar restrito a ponto de inviabilizar a continuidade do negócio, seria mais produtivo avaliar cenários alternativos, prospectar oportunidades de negócios, e, enquanto alimenta a esperança de encontrar o ambiente mais adequado, investir em planejamento e tecnologia. Já quanto ao trabalhador, quando perceber que todos os anos de dedicação serão colocados em xeque, embora não seja fácil o recomeço, em vez de perder tempo se lamentando e buscando culpados pelos infortúnios, o caminho ideal seria se especializar em uma nova área, para que tenha mais atrativos e consiga criar uma ocasião favorável. Na realidade, ambos estariam em uma situação genuinamente melhor se buscassem ousar enquanto o jogo ainda lhes fosse favorável. A contemplação da verdade, no caso, da possibilidade de superação, tem o dom de despertar no ser humano a habilidade de transpor seus limites, de vencer as barreiras que aprisionam aqueles que se negam a reconhecer que o mundo se transforma, que impérios vêm e vão, a despeito de nossos mais caros sonhos... É difícil deixar de reconhecer que, ao que parece, o poeta, mais uma vez, tinha razão: "e a vida continua".
Perigo ou oportunidade
Ariovaldo Esgoti
20/04/2009