Há uma obra, de autoria de Lou Marinoff (2008), "Mais Platão, menos Prozac", que esclarece de uma forma digna de nota a importância de o ser humano buscar atingir o que poderíamos designar de despertar da consciência para que, inclusive, consiga administrar satisfatoriamente os desafios promovidos por um mundo globalizado. Tais lições levam-nos ao resgate de antigos conceitos, os quais, a despeito do tempo, revelam-se tão atuais que poderiam assustar alguns. O exame do trabalho daquele genuíno mestre coloca-nos em contato com teses que, se assimiladas, poderiam revolucionar o nosso universo. Esta viagem estimulou-me a lembrar, em especial, de uma das alegorias com que o sábio Platão se imortalizou: "o mito da caverna". Segundo o pensador, as pessoas viveriam aprisionadas de tal forma que sua percepção somente alcançaria uma diminuta parcela da realidade, as sombras de um mundo tido como completamente desvendado. É possível encontrar ali os baluartes da humanidade, doutos (principalmente em sua própria opinião) ávidos por seduzir suas presas potenciais, os neófitos, aqueles que, recém-convertidos à sua doutrina, imaginam-se portadores de todo o saber desta ciência. O quadro revela que o questionamento apresentado pelo galileu é de uma atualidade que chega a ser constrangedora: "Por que você repara no cisco que está no olho do outro, e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho"? Tal sorte de gente defende com tanto vigor suas crenças que, iludida por sua presunção, taxa de heresia tudo que não se conforme às suas vãs convicções. Como bem ensinou Descartes, há sonhos tão vívidos que dificilmente o indivíduo médio conseguiria diferenciá-los das experiências do estado de vigília. Ainda que neste estado onírico algum pretenso especialista julgasse ter desvendado a realidade e se dispusesse a catequizar o mundo, a experiência revelaria, no máximo, a força de sua imaginação, visto que, a despeito de seu fervor, a realidade continuaria a lhe escapar. A boa notícia é que a solução está na genuína Filosofia, conhecimento acessível a qualquer um que renuncie a meras lucubrações, aqueles exercícios que mais servem ao auto-engano do que ao conhecimento acerca do real. Primando pela lucidez, não basta afirmar sobre si que o despertar foi atingido ou que o número de neurônios seja superior ao dos demais, o caminho da sabedoria passa, necessariamente, pela humildade. Neste sentido, temos outro brilhante exemplo do nazareno, que pode ser assim parafraseado: aquele que pretende liderar aprenda antes a servir ao próximo, pois o verdadeiro líder não existe para a sua própria satisfação. Logo, o que passar disso tende a ser, na melhor das hipóteses, uma espécie de egolatria.
Mais Platão
Ariovaldo Esgoti
27/04/2009