Economia mutante


Sem que nos preocupemos com uma definição rigorosa, em linhas gerais, as idéias darwinistas remetem à consideração de que as espécies resultam de um processo conhecido como seleção natural, expediente este que levaria determinados representantes de uma cadeia à perpetuação de sua prole por meio de variações em seu genótipo. Em outros termos, se o ambiente exige certas características, terá maior probabilidade de se perpetuar o indivíduo ou grupo mais bem adaptado ao meio, pela transmissão aos seus da herança que os habilitarão à fase seguinte do processo. Ainda que haja discussões acerca de lacunas aparentemente insanáveis na teoria, as quais comprometeriam sua ampla aceitabilidade, é fato que a própria história da humanidade demonstra a coerência de tais idéias, dentre outros, em especial, quando aplicadas à evolução das civilizações e de suas estruturas. Diversos exemplos poderiam ser apresentados, mas, visando à objetividade, consideremos duas situações: a medicina e a economia. Há um aprimoramento natural na medicina, visto que, com a ampliação do conhecimento sobre as peculiaridades do funcionamento do organismo humano, meios mais eficazes de tratamento são desenvolvidos e, assim, o que foi incurável em algum momento, passa a ser tratado com tranquilidade no período seguinte. Contudo, principalmente, agora, com as informações de que dispomos sobre as bactérias e os vírus e as consequências de sua atuação no indivíduo, não é difícil ao público em geral reconhecer, mesmo intuitivamente, que os microrganismos podem se tornar resistentes às formas convencionais de intervenção. Exemplo deste fenômeno é o que ocorre em regra no processo de vacinação: o paciente é exposto a "qualquer espécie de vírus atenuado que, introduzido no organismo, determina certas reações e a formação de anticorpos capazes de tornar imune esse organismo contra o germe utilizado" até que haja uma mutação do agente agressor e a tecnologia deixe de dar conta do caso, tornando-se requisito o aperfeiçoamento do modelo. Neste sentido, a propalada gripe suína (vírus A), a qual está apenas em seus estágios iniciais, embora alimentemos a esperança de que seja contida com brevidade, se revela reconhecidamente como evolução de microrganismos que, por seleção presumivelmente natural, visam sua perpetuidade. Não podemos deixar de reconhecer que a globalização, de fato, a velocidade com que conseguimos atingir as regiões mais remotas do globo, tem um papel decisivo na propagação de pragas como esta. Seguramente, chegará o momento em que a medicina conseguirá contê-la, até que vislumbremos outra mutação. Em economia, mais especificamente, no mercado (aquele que reúne os seguimentos empresariais), pode-se observar a ocorrência de ciclos que guardam elevadas semelhanças com o processo viral. Há um estágio inicial em que os empreendimentos se apresentam como senhores do espaço que ocupam, neutralizando a atuação dos rivais. Com o tempo, o ambiente passa a exigir qualidades, que se não forem apresentadas, irão provocar a extinção de empresas. Nessa caminhada, grandes empresas poderão se fundir para adquirirem maior competitividade, sendo possível até a incorporação de pequenas ou médias por aquelas que visam à detenção do domínio de seus espaços. Durante seu reinado, algumas revelarão uma identidade aprimorada enquanto outras procurarão disfarçar sua ineficácia, ostentando uma rentabilidade de fachada para sedução de investidores arrojados. Resultados a qualquer custo, apelo à consciência do consumidor, contabilidade criativa, responsabilidade social, dentre outras estratégias, serão utilizadas para continuidade dos negócios. Curiosamente, projetos mais modestos, porém altamente flexíveis e organizados, podem conquistar proeminência e substituir os antigos algozes, liderando o ambiente até o reinício do processo. Contudo, independentemente do perfil apresentado, o fato é que o ambiente seletivo continuará a redefinir as bases que permitirão a sobrevida dos empreendimentos, aspecto a implicar em que a única chance de sobrevivência está na adaptabilidade, ou seja, na capacidade de, segundo os requisitos do ambiente, suportar as dores do processo de mutação. Diante de tais fatos, resta saber se teremos um nível de imunidade adequado aos microrganismos que ainda não se manifestaram e que apenas aguardam o momento oportuno de fazê-lo, bem como a habilidade de levar nossas empresas ao próximo estágio, aquele período que consagrará o empreendimento superior, ao menos, quando comparado com seus antecessores. Com a palavra o "senhor tempo", aquele que, a despeito das teorias, das justificativas ou das hipóteses, se rende ao organismo mutante.



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