O desafio de ser contabilista


Sem a pretensão de que a área contábil seja a única a ter passado por mudanças intensas nos últimos anos, é preciso reconhecer que o profissional da contabilidade já não é mais o mesmo ou, melhor, não poderá continuar a ser o mesmo.

Aqueles que perceberam o fato de que o mundo evoluiu e que, assim, as necessidades dos usuários da informação contábil - na prática, do empresariado, em sentido amplo - mudaram, têm se preparado para atuar neste novo universo, tornando-se parceiros da equipe gestora.

Não poderia ser diferente, pois a dinâmica empresarial exige a participação de profissionais que consigam perceber além da obviedade dos dados históricos, em outros termos, que estejam qualificados ao trânsito por cenários que têm graus razoáveis de probabilidade de ocorrência.

Pelo que me recordo de meus passos iniciais na contabilidade, os gestores (responsáveis) já destacavam com ênfase a necessidade de os profissionais buscarem as alternativas mais apropriadas à redução (lícita) da carga tributária.

Em decorrência do aperfeiçoamento do aparato estatal, temos convivido com elevação da complexidade para atendimento das obrigações acessórias, em especial, no âmbito tributário, o qual tem se revelado implacável com frágeis políticas de planejamento ou, ainda, provocado expressivos dispêndios àqueles que por ação ou omissão ignoram o imperativo de que a organização dos controles internos é vital para a saúde econômica e financeira dos projetos.

Houve um tempo em que o gestor, ao buscar a consultoria ou assessoramento contábil, podia se dar ao luxo de privilegiar os profissionais ou as empresas que contassem com tradição no mercado, esta concebida como sinônimo de seriedade e de qualidade técnica.

Em que pese o fato de ainda ser importante a tradição, é inconcebível que o empresariado pague caro por tal critério (exclusivo) de escolha, pois alguns dos profissionais que atuam no setor contábil insistem em se limitar à escrituração e apuração mecânicas, sem se importarem com alternativas mais apropriadas aos negócios de seus clientes.

É lamentável que o mundo de hoje tolere a existência de propostas profissionais cuja preocupação elementar seja a de sobreviver mesmo que às custas da saúde financeira das empresas atendidas.

E tão grave quanto, senão mais, é o fato de que parcela do empresariado não possui critérios adequados à avaliação sobre se as competências apresentadas pelo corpo técnico são realmente satisfatórias.

Creio que os colegas concordarão comigo que é inadmissível que, por exemplo, apenas porque haverá alguns procedimentos técnicos adicionais, os empresários sejam condenados ao pagamento de maior parcela de tributos ou que, para não fazê-lo, incorram nos riscos oriundos de práticas ilícitas.

Valendo-me de dados coletados ao longo dos últimos meses em consultorias e treinamentos, constato (perplexo) a ocorrência de situações em que o responsável técnico pela contabilidade opta por descumprir a lei, impondo ao cliente, além dos demais riscos daí decorrentes, o ônus de maior carga tributária, sob o argumento de que é muito trabalhoso organizar os procedimentos contábeis, especialmente, das sociedades limitadas que não são alvo de verificações rotineiras.

Assim, nesta reflexão, conclamo os profissionais a que promovam uma genuína campanha de esclarecimento junto aos seus clientes, e o empresariado a que busque se informar sobre alguns dos aspectos técnicos relacionados às normas contábeis e fiscais de seu seguimento, principalmente aquelas que possam interferir nas finanças corporativas e que, se desprezadas, têm, ainda, o potencial de colocá-los como réus em processos por prática de crime tributário, pois é a única forma de impedirmos que as ervas daninhas continuem a se proliferar, maculando nossa classe e prejudicando toda a sociedade.



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