Mídia, o inimigo público número um


Recentemente, tomado por uma boa dose de saudosismo, lembrei-me de algumas das antigas lições em lógica formal: discussões sobre antecedente e consequente; premissa maior, premissa menor, termo médio; dentre outros aspectos que me levaram (na época), juntamente com os colegas que participaram daquelas aulas, a repensar vários dos conceitos de uso corrente. Recordo-me de que era um de nossos passatempos favoritos o debate sobre se a mídia divulgava informação ou se, sob o manto da imparcialidade, de fato, formava opinião, além de outras facetas que, em regra, alguns dos jovens acadêmicos adoram analisar quando se debruçam sobre a noção de indústria cultural (v. Dialética do Esclarecimento). Colocando de lado, momentaneamente, a indignação pelo aparente descaso com que alguns de nossos congressistas tratam as questões relativas à coisa pública, mesmo hoje, a análise do teor dos discursos de vários deles pode render horas e horas de riso incontrolável, em decorrência da criatividade desses autênticos comediantes. Fui estimulado a essa experiência memorável justamente pela celebração do Dia Internacional da Democracia, solenidade em que o Presidente do Senado denunciou: a mídia passou a ser uma inimiga das instituições representativas. Detive-me reflexivo: Por quê? As informações que ela divulgou seriam falsas? Haveria interesses contrariados? Qual seria a conduta mais acertada para os veículos de comunicação diante daqueles fatos? Por outro lado, se aquelas instituições são representativas, elas representariam o que ou quem, realmente? Aprendi a desconfiar das informações que a mídia divulga ou, mais apropriadamente, dos ângulos utilizados nas abordagens destes temas, entretanto, ao relembrar o pastelão em que o Presidente da Casa se envolveu, é difícil não indagar, por exemplo: seria correto manter o silêncio sobre o caso dos atos secretos do Senado? A mídia deveria se calar ante a declaração de que o protagonista não tinha quaisquer vínculos com sua Fundação ou que não influenciava nas contratações pelo Congresso? Ou, ainda, a sociedade deve permanecer totalmente passiva diante da forma como as comissões de ética se conduzem? Há quem se apresse em reconhecer que ele seria apenas o bode expiatório, aquela parte revelada de um iceberg extraordinário que possuiria dimensões suficientes para encobrir toda uma nação, mas, a despeito de os veículos de massa poderem ser utilizados como instrumento de dominação, isto não significa, necessariamente, que sejam incapazes de privilegiar os legítimos interesses da sociedade, ainda que não o fizessem com a habitualidade e com a extensão que ajudasse a expurgá-la dos predadores mais renitentes. Creio que o Ilustre Senador perdeu uma oportunidade extremamente valiosa ao não beber da sabedoria que emana de nosso representante máximo, pois, ciente da qualidade de sua biografia, ele bem que poderia ter optado pela retirada estratégica, eliminando mais dois coelhos com um golpe certeiro: preservaria o partido e o governo do desgaste que promete se arrastar um pouco mais, provavelmente até o pleito que desponta no horizonte. Por fim, uma reflexão adicional: o ser humano tem a tendência de buscar culpados por suas mazelas, porém este tipo de atitude é, de fato, producente? Em outros termos, não se trata de indagarmos se o inimigo público é a mídia ou é a classe política, teríamos que expandir um pouco mais a análise, talvez, questionando-nos sobre quem realmente faz um e outro e por quê; e, no caso daquele último, em especial, quem foi, mesmo, que fez a escolha (pelo voto)?



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