A criança de antes (de há algumas décadas) apreciava acompanhar as reuniões dos mais velhos, o que não era muito difícil de fazer, já que, como não havia videogame, nem televisão, e a liberdade para brincar fora de casa, especialmente, à noite, costumava ser bem restrita, a alternativa era tentar entender sobre o que tanto falavam e, às vezes, riam. Uma coisa era certa (isto na perspectiva daquela criança), possuíam uma sabedoria que precisava ser obtida a qualquer custo, afinal, pareciam compreender tudo: como governar o país, dirigir uma empresa, chefiar uma casa e ter amigos, dentre vários outros. As conversas sobre como se relacionar bem com as pessoas acabavam sendo as mais atraentes, visto que, embora os demais temas parecessem muito importantes, aquela idade tornava mais urgente a conquista de amigos, invariavelmente, dependendo disso a própria sobrevivência (na escola, em particular). Não raro, atordoavam o mundo com leituras como: "quem estuda demais enlouquece"; ou "o conhecimento é perigoso" - apenas para destacar dois dos princípios que ensinavam. De fato, não fazia muito sentido ter que estudar, se no final da caminhada, a loucura era praticamente certa. Este tipo de tradição é tão forte para alguns que há quem chegue, mesmo, a se questionar sobre se aquelas teses não estariam cobertas de razão. Contradições à parte, é preciso reconhecer que o conhecimento pode realmente esconder armadilhas, mas, devido à impossibilidade de determinação inequívoca do volume que poderia ser abarcado pelo indivíduo (se é que haveria algum limite), as reflexões têm que seguir noutra direção. Por exemplo, há a tradição eclesiástica, da qual emergiu a célebre expressão "as muitas letras te fazem delirar" (o que, no contexto, implicava em resistência à reformulação da cultura religiosa dominante), ou a de origem semita, ao preconizar "a soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda". Em plano análogo, dentre outras possibilidades, há vertentes da tradição filosófica oriental que conferem forte ênfase à humildade como um dos pilares da sabedoria, a despeito de que tal saber, em regra, seja compreendido como o despertar de um mundo de ilusões, o que remeteria ao rompimento com nossas questões mais prementes... Considerando que um dos propósitos aqui é aprender com as tradições, no que concerne à científica, desde a fase embrionária, sua marca pode ser assim sintetizada: "a consciência do não-saber leva ao conhecimento verdadeiro, em perspectiva dinâmica". Logo, em essência, a Filosofia, a Ciência e a Religião estariam de acordo com a indicação de que a altivez é o problema real, não a extensão dos estudos e, neste sentido, das reflexões. Naturalmente, não será o caso de reduzir o tema à escolha entre certo e errado; entretanto, o que dizer acerca daquelas teorias de nossos pais (ou avós)? De forma objetiva, devemos nos render à sabedoria deles, pois o indivíduo que acumula grande conhecimento enfrenta a tentação real de se considerar superior aos demais, deixando de aprender com seus pares, caso fracasse na jornada. Aqueles que incorrem nesse equívoco costumam apelar para justificativas, invocado argumentos extravagantes ou, simplesmente, zombando da razão, em especial, quando pressupõem que todos se curvarão aos seus prognósticos (pobres almas!)... Considerando que quanto mais aprendemos, enquanto for possível, mais há para aprender, é bem mais saudável incorporar uma das lições de um dos grandes mestres da humanidade: "tudo o que sei é que nada sei".
Estudar muito enlouquece
Ariovaldo Esgoti
06/10/2009