Ensino confessional, o réquiem da espiritualidade


Em passado não muito remoto, certo líder de uma das superpotências justificou a invasão e a guerra com o lançamento de uma campanha que, a despeito de representar um atentado à Carta das Nações Unidas, se insinuou como uma espécie de resistência ao eixo do mal. De fato, os EUA têm revelado contrastes curiosos praticamente desde sua colonização, e esta marcada pelo predomínio da busca do bem, prevalecendo os interesses da coletividade apenas em certo sentido, já que, por mais que houvesse esforços para tanto, as minorias (ignorado o aspecto numérico, propriamente dito), nunca fizeram parte da América que deveria ser salva por Deus (refiro-me à noção ainda defendida por alguns de seus formadores de opinião). Assim, não causa admiração o fato de terem encampado a "March for Jesus", a qual tem entre seus propósitos a invasão das nações que seriam cativas do império do mal - leia-se, impregnadas por modelos culturais não respaldados pelo sistema judaico-cristão que representa. Devo esclarecer, entretanto, que a referência é alegórica, pois a vertente evangélica do pensamento cristão da qual se originou a Marcha, em regra, está imbuída por nobres valores, esmerando-se pela defesa do bem comum na sociedade. O problema está justamente na exceção, nos grupos radicais que saem daí ou que nela se inspiram. É preciso reconhecer que aos olhos de dada ideologia, principalmente se tender ao exclusivismo e mesmo que tenha decorrido de movimento religioso sério, as demais crenças fatalmente se configurarão como subversivas, devendo, portanto, ser extirpadas. Exemplo disso, temos vários à nossa volta, mas podemos ressaltar as incursões missionárias, com uma variante muito engenhosa desse processo: a doutrinação nas escolas, ainda que promovida veladamente. Não estou com isso afirmando que apenas o pensamento de alguns segmentos cristãos radicais daquele país tenha essa característica, porque do oriente tem eclodido correntes que, se deixadas à vontade, exterminariam grande parte da humanidade. Algumas para prová-lo, chegam a provocar atentados mortais quase que diariamente... Em nosso próprio país a situação não é muito diferente, pois tem crescido a um ritmo alarmante o número de comunidades que capturam suas presas (assim como ocorre por lá), difundindo a ilusão de que o mundo caminha para o seu fim, com a implicação de que somente ali haveria justiça e paz, desta forma, alienando-as completamente... Quando a família chega a se dar conta, vidas e recursos foram desperdiçados, às vezes, definitivamente, desvelando, assim, o fim do mundo para tais vítimas. Retornando à formação ideológica, o que podemos vislumbrar é a intensificação dos investimentos no ensino confessional, inclusive com repercussões nos demais países do globo, visto que a apreensão da consciência do indivíduo adulto, embora exequível, não é tarefa das mais simples, enquanto o cérebro infantil, à semelhança de uma tábula rasa, em regra, oferece um terreno extremamente fértil para as sementes doutrinárias. Mesmo o Brasil tem enfrentado este tipo de discussão há alguns anos e, a despeito das idas e vindas dos aspectos políticos e legais que cercam o tema, teremos que concordar com o fato de que, independentemente de previsões normativas, o professor tende a difundir suas convicções, sujeitando o aluno desavisado a um tratamento que poderá se assemelhar a uma verdadeira lavagem cerebral. Entendo que o assunto é sério demais para que deixemos a preparação de nossas crianças, seja nas mãos do Estado, seja nas mãos de um modelo de ensino confessional cujas consequências subavaliemos ou ignoremos por completo, daí depreendendo-se que cabe primeiramente aos pais ou responsáveis pela criança a averiguação sobre se o estabelecimento e, neste sentido, os profissionais que ali atuam possuem as características necessárias à formação com o conteúdo e a qualidade vislumbrados. Logo, em que pese o direito universal à liberdade de consciência e de crença, pela qual o Estado tem o dever de zelar, assegurando a laicidade das instituições públicas, como não há indivíduo desprovido de ideologia (ressalvados os casos patológicos), cabe ao cidadão a defesa de suas convicções por meio das escolhas que promove sobre a escola mais adequada à formação das crianças, analogamente ao que deveria fazer em relação ao cardápio mais apropriado à saúde, ao vestuário mais pertinente ao seu contexto e aos políticos que, de fato, têm condições de representá-lo, dentre outros, certamente.



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