Quem me conhece de longa data já não se incomoda com as referências que faço, vez por outra, à psicologia ou psiquiatria, por ter percebido que é pouco provável que aqueles que tenham se embrenhado pelos caminhos da leitura filosófica - aliás, um velho hobby (tem louco pra tudo) - ignorem uma de suas grandes contribuições, justamente a abordagem terapêutica. Embora tenha abraçado a carreira contábil e assim conviva com investidores, empresários e gestores, além de com os profissionais abarcados principalmente pela mesma classe, a relação com as antigas lições são praticamente inevitáveis, visto que este nosso ambiente nos expõe a experiências potencialmente marcantes (isto em uma leitura muito gentil). Como estamos cercados por normas que vêm e vão, desaguando em cargas burocráticas que beiram ao absurdo, os riscos ao bem-estar podem ser assustadores, chegando a envolver a ocorrência de transtornos mentais e comportamentais e, não menos importante, a disfunção orgânica, às vezes, de ordem múltipla (o que quer que isto seja, não parece nada bom). O tema é muito vasto, reconheço, entretanto, devido à recorrência no universo empresarial e, especificamente, no mundo contábil, focarei um dos sintomas do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade: a síndrome da verdade absoluta, ou o caráter revelado por aqueles que se concebem como os donos da verdade. Tais indivíduos, em regra, não admitem a contrariedade, abominando quaisquer vestígios de conceitos que destoem dos seus. Sem pestanejar, taxam de irracional e leviano tudo que se configure como ameaça aos castelos de areia que foram vendidos como se fossem o suprassumo das edificações. Diante de qualquer questionamento, saem-se com pérolas das mais variadas. Por exemplo, em um momento defendem que são inoportunas reflexões mais abrangentes, pois suas ideias são verdades axiomáticas, enquanto em outro apregoam que são verdadeiras, quando comparadas, as assertivas "inexiste valor absoluto" e "a relatividade é inaplicável aos fenômenos" (fique tranquilo, a explicação rebuscada e a contradição costumam ser os passatempos preferidos dos hipócritas... Não deve ser nada fácil a convivência com estes pseudogênios, alguns dos quais supõem que os títulos alcançados (em áreas bem específicas) - ainda que com algum mérito - lhes confeririam autoridade plena em quaisquer outros temas. Ledo engano! Não fosse a patologia envolvida, seria o caso de expô-los ao escárnio, o que, conforme me ensinou um antigo mestre (ainda busco desenvolver sua serenidade), aliás mais douto do que vários desses que regurgitam a sua arrogância, não deve ser motivo de preocupação, visto que o tempo se encarregará dos tais. Cairão como presas em suas próprias armadilhas, talvez, padecendo no ostracismo. A boa notícia é que esse tipo de transtorno pode ser, ao menos, atenuado, desde que com recurso à abordagem terapêutica adequada, embora, para que a sociedade possa usufruir desta benesse, eles precisassem reconhecer o estado de morbidez de seu quadro (dito de outra forma, teriam que deixar o salto alto ou abaixar a crista). Por outra perspectiva, segundo esclarece Ana Beatriz B. Silva (2003, p. 20) ao expor o transtorno, quando há o predomínio de "características desatentivas" (p. 16): não devemos raciocinar como se estivéssemos diante de um "cérebro defeituoso". Devemos, sim, olhar sob um foco diferenciado, pois, na verdade, o cérebro do DDA (Distúrbio do Déficit de Atenção como sinonímia de Transtorno de Déficit de Atenção) apresenta um funcionamento bastante peculiar, que acaba por trazer-lhe um comportamento típico, que pode ser responsável tanto por suas melhores características, como por suas maiores angústias e desacertos vitais. Neste sentido, o relevante é a compreensão dos sintomas que, rotineiramente, podem ser reunidos em uma tríade: alteração da atenção, marcada pela forte tendência à dispersão; impulsividade, permeada por uma forma potencialmente danosa de verborragia; e hiperatividade física e mental, a primeira, indicada pela sofrível contenção de movimentos involuntários, e, a segunda, por uma espécie de "chiado cerebral" (cap. 2). Merece destaque as orientações da autora no sentido de que o tratamento seja analisado sob duas grandes vertentes: a do desconforto individual e a do desconforto social, que uma determinada manifestação possa causar à pessoa ou ao ambiente social no qual está inserida, respectivamente (p. 193). Já que enveredei por esta abordagem, apontarei ainda a proposta da autora ao tratamento desse transtorno, para a qual o apropriado é a divisão em quatro grandes etapas (cap. 15): informação/conhecimento, consistindo na capacitação do paciente para compreensão de seu quadro; apoio técnico, caracterizado na organização da rotina do indivíduo para minimização do desconforto; medicamentosa, abordagem a ser adotada (sob supervisão médica) como uma ferramenta a mais na busca de uma melhor qualidade de vida; e psicoterapêutica, em especial, com o uso de terapia cognitivo-comportamental. Apenas para que o conceito não fique em suspenso, citarei um fragmento da lição de Cristiano Nabuco de Abreu & Miréia Roso (2003, p. 142), acerca do modelo teórico da terapia cognitivo-comportamental: Em linhas gerais, o modelo cognitivo baseia-se na hipótese de que as emoções e os comportamentos são influenciados pela maneira como o indivíduo estrutura o mundo, como percebe e interpreta uma dada situação, através de seus pensamentos e de suas crenças. Segundo essa teoria, existem dois tipos básicos de cognições: os pensamentos automáticos, que são palavras, idéias, imagens ou lembranças que as pessoas têm a todo instante e que surgem espontaneamente, como uma segunda linha de pensamento; em geral, passam despercebidos e estão associados a emoções intensas e à interpretação dos acontecimentos...; e os esquemas cognitivos básicos, que são aprendidos e formados com base nas experiências de socialização, principalmente nos primeiros estágios do desenvolvimento... A terapia cognitiva enfatiza a identificação e modificação desses processos e de outros padrões cognitivos disfuncionais. Embora o foco principal da terapia seja o aspecto cognitivo, o modelo cognitivo da disfunção supõe uma inter-relação entre afeto, comportamento e cognição, visando a produzir mudanças nessas três áreas em uma perspectiva integradora... Sem a menor pretensão de ter esgotado a temática, aproveito para esclarecer que como minhas reflexões não têm qualquer pretensão rigorosa ou acadêmica a relação que estabeleci entre o que denominei de a síndrome da verdade absoluta e o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade decorreu mais da expressiva proximidade existente entre a sintomática daquela e a proposta terapêutica desta do que de uma vinculação estrita e, assim, necessária, ao menos, no plano científico.
A síndrome da verdade absoluta
Ariovaldo Esgoti
30/11/2009