Recentemente reencontrei uma senhora (professora aposentada) que havia conhecido em uma daquelas agradáveis horas de espera em um portão de embarque. Na ocasião, como estávamos sentados lado a lado, foi natural que houvesse um esforço mútuo para atenuação do estresse, o que nos levou a uma longa e boa conversa. Aprendi bem cedo que os mais experientes, por terem presenciado quase tudo na vida, têm muito a ensinar a ouvidos atentos, àqueles que perceberam ser desnecessário a reinvenção da roda, afinal as boas lições acabam representando uma economia de tempo muito importante. Tratamos sobre vários temas e nos concentramos especialmente nas repercussões da Constituição de 1988, até que ela desabafou: "Com essa história de as minorias conseguirem tantos privilégios, não só o país será ingovernável, como a economia virará um caos". Embora presumisse que ela fizera uma referência saudosista àquilo que alguns taxam de "bons tempos da ditadura", como lecionam alguns manuais de inteligência interpessoal acerca da atitude elegante ao discordar de alguma ideia, arrisquei uma indagação: "Ao que a senhora se refere, especificamente?". Qual não foi a minha surpresa, aliás bela surpresa, ao ouvir: "As pessoas não entenderam os direitos e garantias fundamentais, elas os distorcem a bel prazer para que lucrem sobre a desgraça alheia". Dizer que fiquei espantado seria o mínimo, mas o esboço de tal reação não daria conta do que vivenciei ali. Foi como se eu assistisse a um cerimonial em que, com o perdão das leitoras, uma bruxa colocasse em um caldeirão ingredientes como: admiração, perplexidade, encantamento, dúvida, temor... Ela havia conseguido mexer comigo, então resolvi provocá-la: "A senhora seria contrária à política de quotas ou à liberdade religiosa ou de expressão, por exemplo?". Literalmente fisgado ou sabiamente tendo submetido o seu interlocutor, ela avança: "Quando condeno os malefícios da tecnologia ou de dado instrumento eu não me refiro a eles em si, e sim ao uso que pessoas desavisadas ou inescrupulosas fazem dos tais". "Meu filho, na realidade, o que dá nos nervos é ver essa gente que não respeita a religião ou o pensamento do outro exigir para si as benesses da lei. Em um momento querem adiar provas e testes, porque realizá-los em dia sagrado é algo que fere as suas convicções. Em outro querem obrigar os demais à convivência com os seus rituais. E tem também a questão dos símbolos religiosos, com a mensagem prática de que você tem que conviver com o meu instrumento sacro, pois ele é superior ao seu, que não me interessa nem um pouco". Ela conseguiu me deixar reflexivo. Lembrei-me dos processos que visavam ao adiamento de concursos públicos, do Exame Nacional do Ensino Médio e do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes. Isto para não falar das discussões sobre a manutenção de símbolos religiosos em escolas ou repartições públicas, se bem que neste caso se tratasse de fato da ditadura da maioria - em declínio, é verdade, mas ainda maioria. Diante de colocações tão contundentes, consegui apenas questionar: "Mas, e o que tem a economia ou os mercados a ver com essa questão? A senhora avalia que o modelo capitalista seja predador em essência?" Arrisquei para demonstrar que detinha algum conhecimento na área, em referência ao darwinismo social, tentando assim intimidá-la... Com muita paciência, aliás a marca dos sábios, ela considerou: "Meu jovem, sejamos práticos, tente imaginar se é viável em termos econômicos a realização de investimentos em espaços exclusivos para fumantes e não fumantes, heterossexuais e homossexuais, católicos, protestantes, judeus, muçulmanos, espíritas, exotéricos, e etc". Ela foi de uma precisão cirúrgica; eu estava em suas mãos, não tinha mais jeito; e além disso ela estava diante de uma pobre alma sem imaginação. "Não me refiro somente a espaços físicos, pense na organização das atividades diárias, na conciliação dos dias sagrados com os dias de expediente e, portanto, de negociações entre as empresas. Ou de profissionais em funções chave que adotaram preferências sexuais ou hábitos incompatíveis com os de seus pares, incluídos aí os potenciais clientes". Com esse golpe não restou alternativa, ela me tomou pelas mãos e me conduziu tal qual a uma criança que desconhece os perigos de um terreno inexplorado. "É simplesmente ridículo supor o cancelamento de uma grande operação apenas porque o 'Dia D' é uma data especial para a sua religiosidade. A questão é simples assim, se não tiver competência para agir feito gente grande, peça licença e saia de mansinho. Os mercados não toleram quaisquer formas de amadorismo"... Com a chegada de seu voo, ela embarcou deixando para traz um admirador que murmurou: "Esse país precisa de mais pessoas assim, com consciência crítica e que não se deixem iludir por discursos vagos, embora embalados com alguma beleza... Ela deve ter deixado seus ex-alunos com muita saudade"... No reencontro, após os cumprimentos de praxe, perguntei-lhe sobre o que a teria trazido à nossa adorável região, ao que ela, tombando o semblante, comentou: "Meu irmão caçula foi desenganado. Está com câncer em estágio terminal"... Foi um dilema e tanto, gostaria de poder dizer-lhe que "Deus sabe o que é melhor", mas não sei se funcionaria com minha amiga, ela possivelmente me recepcionasse com algo semelhante a "E tem o que seja melhor do que a pronta recuperação?", ou, se estivesse realmente inspirada, "Ele não o faz porque não pode ou porque não quer ou porque não é?"... Ali estava eu perdido em minhas presunções, sem dar chance a uma amiga em um momento tão difícil. Na falta de uma idéia melhor, lancei: "Como os familiares estão reagindo"? Sem pestanejar, ela responde: "Na medida do possível, estamos suportando", e, num legítimo rompante, completa, "Poucas coisas são tão certas na vida como o fim, ou a transição se você preferir". "Diante da realidade não há muitas alternativas, ou a pessoa se conforma ante ao limite de suas forças ou se ilude com a ideia de que alguém pode intervir no regularmente inevitável". "Meu irmão teve sua chance. Muitos duvidaram de que chegaria tão longe, já que se desperdiçou por praticamente toda a vida"... O clima ficou um pouco pesado, e eu continuei sem saber o que fazer. Tentei fazer uma leitura positiva da situação, até porque, passada a dor, teríamos ainda muito o que conversar e arrisquei um clichê: "Todos ficarão bem, as estações do ano se alternam em perfeita ordem". Nossa, como parece profundo isso! Antes de nos despedirmos, minha amiga ainda me proporcionou outro insight grandioso: "É verdade, assim como estrelas são tragadas ou implodem em um instante, e o universo é marcado por contrastes... Tudo tem o seu oposto... E para aquilo que já não é, tudo o que resta é o eterno vazio"... Hum, acho que comecei a entender.
O flagelo das minorias
Ariovaldo Esgoti
07/12/2009