Bela, a dama impetuosa


Certa manhã fomos surpreendidos pelo o choro daquela criança que fora abandonada à nossa porta. Chovia muito e o frio era razoável. Se ela continuasse ali, enquanto as formalidades fossem observadas, correria o risco absurdo de padecer diante de nós. Não era o caso de perdermos tempo questionando as razões de seu desprezo. Talvez sua mãe e, por que não dizê-lo, seu pai até tivessem justificativas plausíveis para a decisão que tomaram. Entretanto, o fator relevante naquela cena era sua necessidade de acolhimento, o que fizemos de imediato, pois a menina precisava de alguém que se preocupasse com ela, além de proporcionar-lhe o espaço para que se desenvolvesse saudável. Honestamente, não havia como suportar a ideia de entregá-la a um abrigo, o que recusamos de pronto. Enquanto ela se recuperava da experiência que enfrentara, fomos cativados de tal maneira que a cada dia ficava mais difícil não considerá-la um membro da família. Até houve quem tentasse nos dissuadir: olha, depois que a gente se apega, a situação fica muito complicada; até porque é possível que os pais biológicos apareçam e a queiram de volta... Não houve saída, fizemos o possível e o impossível para legalizar a sua adoção. E depois de superadas as dificuldades, Bela era finalmente parte da família. Sempre muito habilidosa, dia-a-dia nos brindava com surpresas extremamente agradáveis. Ela parecia saber, talvez, por instinto, quais passos eram os acertados para sua integração. Curioso esse comportamento, pois ninguém chegou a lhe dizer abertamente: não toque nisso ou naquilo; fique aqui ou ali; esse brinquedo é o seu... Ela antecipava nossas prováveis avaliações e agia como uma menina adulta. Isso não significa, necessariamente, que eu preze o comportamento adulto em crianças. Na realidade, objetivamente, quando me deparo com algo assim, consigo apenas pensar: pobre criança, impuseram-lhe um futuro sombrio. Nesses anos todos, apesar dos altos e baixos que normalmente acompanham o ser humano, formamos uma família muito feliz. As recordações sejam por lembranças, filmagens ou mesmo fotos, nos enchem de alegria e confirmam o velho adágio: a felicidade pode ser encontrada também nas pequenas coisas. Contudo, não consigo disfarçar certa frustração... Não, não! Ela ainda está conosco, sim! Por quanto tempo? Bem, isto é outra história... O que causa certo pesar é que, tomados pela felicidade que sua companhia nos tem proporcionado desde o início, acabamos cometendo um verdadeiro pecado. Um descuido que, certamente, nos acompanhará daqui por diante. Negligenciamos com a vacinação dela e, agora, refletindo a respeito, vejo que por pura sorte não havia acontecido algo sério lá traz, mas que o tempo cobra de forma implacável, já que ela acabou contraindo cinomose - refiro-me à canina. Estou ciente de que mesmo se vacinada haveria riscos, porém, se pudesse escolher, hoje preferia tê-lo feito. Aprendemos uma lição importante, sem dúvidas, mas não é tarefa fácil observar o seu definhamento, a tristeza em seu olhar, iniciar o dia sem saber ao certo se ela resistiu... Como não pensar na falta que ela fará se o pior acontecer? Gostaríamos que houvesse a recuperação, de preferência sem ou com o mínimo de sequelas, mas isto já não depende mais de nós, visto que há coisas que não podemos mudar... Fico apenas na expectativa de poder escrever um novo texto em que retrate sua assombrosa recuperação, afinal: nem só de contabilidade viverá o auditor... A propósito, por que o título "Bela, a dama impetuosa"? Simples! É que seu comportamento tem sido tão maravilhosamente não convencional que me pareceu a forma natural de descrevê-la: menina graciosa, doce e muito, muito esperta.



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