Como resposta à grandiosidade dos artistas que perambulam pelas cercanias do país, no próximo semestre, logo no início de outubro, será realizado um dos maiores espetáculos que a nação já presenciou, com a potencial consagração de alguns nomes dignos das fabulosas operações da Polícia Federal, aliás, com designações muito criativas: Navalha, Caixa de Pandora, Rapina, Faktor, Terabyte, Ícaro, Castelo de Areia, Satiagraha, Cassino, etc. Em tempos em que nem instituições seculares resistem aos ditames da ética e da moral, seja pelos casos de pedofilia na Igreja, doping nos esportes, venda de sentenças pelo Judiciário, com direito até a aposentadoria compulsória, sem redução de soldos, seja pela promulgação de leis em sintonia com as negociatas de lobistas, dentre tantos outros exemplos, não causa admiração que o ambiente esteja sob o domínio de certa dose de apatia ou, mesmo, de desespero. Nunca é demais lembrar que o cidadão de bem tem convivido com: crises do Conselho de Ética no Congresso Nacional, comissões parlamentares de inquérito ineficazes, o Mensalão do DEM, o Mensalão do PT, os atos secretos do Legislativo e do Executivo, as fraudes licitatórias, o Valerioduto, a farra das passagens aéreas e o escândalo das bicicletas, dentre muitos outros, certamente. A probabilidade, agora, é de que a grande diferença esteja justamente no fato de que já não se percebe com facilidade diferença alguma entre as opções de shows, os quais anunciam eventos dignos de nota, com destaque para: o fim da pobreza, a oferta de educação de qualidade, e o acesso irrestrito aos serviços de saúde e de saneamento. Contradições à parte, os organizadores do megaevento não pouparão esforços para que a população, mesmo a carcerária, referindo-me aqui aos detentos provisórios, exerça o direito de escolher entre as opções, cujo resultado a acompanhará pelos próximos anos, devendo ser ressaltado que a única exigência para o participante é o comparecimento, visto que para a maioria o voto é obrigatório, e, assim, a participação em trajes adequados. Este aspecto é importantíssimo, pois não será permitido o acesso àqueles que deixarem de comparecer com o seu principal adereço, de fato, com a máscara que melhor o qualifique: felina, para referendar a apatia, alguns até ousariam dizer, o lado gatuno que há em cada um; canina, em designação ao comportamento daquelas ferinhas que, talvez, por não terem raça definida, têm dificuldade para distinguir entre um suculento filé e o próprio excremento; bovina, especialmente, em alusão à atitude dos que ruminam e ruminam enquanto o tempo, simplesmente, passa; suína; bem, provavelmente, pelo seu habitat... Reconhecendo as riquezas de nossa fauna exuberante, várias opções serão colocadas diante do pretendente para que sua participação no pleito seja, de fato, inesquecível, o qual ainda contará com o apoio de assessoria especializada para que a escolha guarde relação com suas mais profundas aspirações. Aos que ainda estão em dúvida, que querem brilhar ou que apenas temem a inadequação, os produtores esclarecem desde já que a população poderá contar com a mais tradicional das peças, a que geralmente põe em alvoroço os melhores picadeiros pelo mundo afora: a máscara de palhaço (com o devido respeito à nobre profissão)... Torço para que nos conscientizemos de que é desnecessário permanecer em estado vegetativo ou sonambúlico, o que conseguiremos com a percepção de que é tempo de despertar.
Tempo de despertar
Ariovaldo Esgoti
29/03/2010