A Dança do Efêmero


A existência é o cinzel que opera no vácuo, onde a ausência não é falta, mas o relevo necessário para o encontro. No nervo onde a dor ainda vibra, a alegria ensaia um contracanto mudo, como a luz que insiste em vazar pelas frestas do dissenso. A paz não é o fim do ruído, mas a quietude que se estende, vasta e paciente, sobre o cansaço do mundo.

O tempo, esse artesão severo, por vezes reveste o instante com a densidade do mármore, enganando o olhar que busca o eterno no que é sopro. O passageiro se impõe, sólido e grave, apenas para se dissolver no lampejo seguinte, revelando a fragilidade de sua arquitetura. Sob o signo da impermanência, o êxtase e o desvanecimento bebem da mesma fonte, fluindo em rios que não se repetem.

Somos, enfim, as testemunhas dessa coreografia invisível, onde o efêmero não foge, mas nos conduz ao centro da própria vida. É na fuga do que é transitório que a verdade se despoja de seus véus, entregando-se ao movimento secreto das coisas que passam. Viver é o exercício de acolher a dança, sabendo que cada partida é o rastro deixado por uma presença que, ao findar, se torna infinita.



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