A concorrência dos bichos


De saída esclareço que o tema, "a concorrência dos bichos", vai entre aspas porque direta ou indiretamente já foi referência em músicas, livros e filmes, dentre outras obras que nos estimulam ao exercício da reflexão, revelando-se certamente como um excelente recurso para a autorreciclagem. No texto anterior ("Tempo de despertar"), ao criticar o tratamento que a população regularmente recebe de alguns dos integrantes do mundo da política, fiz uma analogia entre certos comportamentos e a fauna brasileira, em especial, a urbana, sem que desprezasse outras possibilidades, já que, para os fins que tinha em perspectiva, era preciso reunir a bicharada, isto sem qualquer conotação informal ou pejorativa. Então, o(a) leitor(a) perceberá que, em certo sentido, ensaiarei uma tênue continuidade entre os textos, tentando não comprometer o entendimento de quem quiser partir diretamente das ideias aqui apresentadas, até porque o alvo hoje é outro. Convivemos com uma gama de situações que, embora reclamem nossa atenção, nem sempre são devidamente focadas. Esse tipo de analogia ou o seu uso metafórico me parece natural, pois, mesmo se analisarmos rapidamente, perceberemos que o dia-a-dia está recheado de expressões que fazem alusão ao assim chamado mundo animal: amizade de urso; apetite de leão; ronda de abutre; olhar de águia; ânimo de preguiça (bicho); queda de (sobre o) cavalo; companhia traíra; e sutileza como a de uma gazela; dentre muitos outros. Em meio ao emaranhado de razões para que assimilemos com tamanha facilidade a linguagem conotativa, no caso, com privilégio de referências às espécies animais, de forma segura encontraremos as deficiências da expressão verbal, além de certa dose de cinismo, aparentemente, indispensável às relações interpessoais. Também não é por acaso que os bichos são eleitos as mascotes por excelência de alguns clubes. Temos o peixe, o gavião, o galo, o porco, o urubu, a raposa, etc. Estas beldades transmitem uma mensagem, talvez, subliminar, às suas vítimas ou, dependendo do resultado, algozes. Neste sentido, devo reconhecer que a nação vive um momento ímpar em sua história. Por um lado, são tempos em que raposas, lagartos, urubus, gambás e piranhas, literalmente, pintam e bordam pelos corredores das principais instituições, isto para não dizê-lo em relação à sociedade como um todo. Por outro, o empresariado, os profissionais e as demais pessoas de bem têm aprendido a avaliar com maior precisão o curso das propostas e ações que lhes são dirigidas, conferindo distinção às medidas que primam pelo respeito à ética e à moral, aos programas marcados pela responsabilidade e cidadania. No entanto, ainda que os esforços pela manutenção dos princípios constitucionais sejam intensos, os carniceiros não dão trégua, lançam-se com intrepidez à desprezível tarefa de defender suas vãs filosofias, pressupondo que o país ainda esteja sob o predomínio da insensatez, de longe superada, apesar dos desafios que ainda assolam algumas regiões, inclusive do saber. De tão acostumados à podridão, seu doce lar, rastejam de engano a engano atentos à oportunidade de aprisionar aqueles cujas consciências não amadureceram, seja pelos feitos do tempo, seja pela busca empreendedora. São inclusive capazes de entoar melodias sacras ou participar de santos ofícios imediatamente após fartas refeições, em especial, quando a desonra é o prato do dia. O que mais se pode esperar de tal classe de vermes? Com um discurso politicamente incorreto, esses abutres subvertem o poder de Midas - tentam transformar em ruínas tudo o que tocam. Sobre os tais, o Mestre já havia prenunciado: "Hipócritas! São semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia". Isto faz com que me lembre de um velho conto, até mesmo, retratado pelo cinema, que apresentava o embate entre a cigarra e a formiga. Esta, em vez de apenas fazer barulho, a pretexto de um canto original, não poupava esforços para cumprir o seu papel na sociedade: acima de tudo, ser útil... Admito que as possibilidades ainda sejam amplas, apesar disso encerrarei, apontando apenas que enquanto os ratos são responsáveis pela destruição de grandes quantidades de alimento e pela transmissão de diversas doenças, e as baratas nutrem-se de toda sorte de produtos, contaminam alimentos, têm odor desagradável e tornam-se pragas sérias, a abelha, especialmente, a social, desempenha um papel muito importante no ciclo da vida, sendo a responsável pela perpetuidade de uma seleta variedade de plantas. A lição? Bem, objetivamente, o que fica é que o ser humano é a única das espécies que carrega todas as demais em si, possuindo a faculdade de escolher aquela cuja atitude irá manifestar. O segredo? Creio que seja buscar o próprio bem, contudo, privilegiando o bem comum, ou seja, compreender que quando todos ganham, nós também ganhamos.



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