O pensar autômato é náufrago de si: baila à deriva num estuário de brumas, onde as margens desmilinguem em fumaça e o leme se torna fantasma. Somos barcos de papel levados por correntes mudas, enquanto o clamor do mundo — esse vento de ruídos — sopra as velas para longe do centro.
A bússola, sob o feitiço do murmúrio incessante, adormece no convés; esquece que o leito da vida não é cárcere, mas caminho a descobrir. Não é preciso aceitar o açoite das águas, nem submeter os dias ao capricho das tempestades invisíveis que nos desviam da rota.
Basta o estalar de um átomo de lucidez para que a âncora da presença morda o fundo e desperte o capitão. Nesse breve relâmpago de agora, o rumo se refaz. Não é apenas o barco que se apruma e ganha norte; é o próprio horizonte que, enfim, se deixa redesenhar.