Celibato e pedofilia, uma relação falaciosa


Os últimos tempos têm sido extremamente férteis na abertura da caixa-preta da Igreja, expondo ao grande público que, a despeito da histórica pretensão de ser o baluarte da humanidade, a instituição está sujeita às mesmas falhas em que incorrem quaisquer outros grupos formados por meros mortais. Entretanto, ainda que seja salutar a difusão da verdade nua e crua dos fatos, equívocos como o oriundo do relacionamento indevido do celibato com a pedofilia não podem ser tão ingenuamente admitidos, sob pena de ser utilizado um erro na explicação de outro, ou seja, de legitimarmos o desrespeito à liberdade de pensamento e crença sob a justificativa de que reduziria ou, até mesmo, eliminaria a conduta criminosa. Não é o caso, inclusive, de ser realizado um levantamento estatístico para aferição do percentual de pessoas favoráveis ou contrárias à adoção do celibato, visto que a prática em si é legítima sempre que tomada no livre exercício da prerrogativa do candidato ao sacerdócio, cuja instituição o tem como uma das balizas fundamentais. Pressupor que o fim do celibato iria acabar com a pedofilia na Igreja faz tanto sentido quanto inferir que o fim da democracia eliminaria a corrupção política que vitima parcela crescente das figuras que desempenham funções públicas ou que se relacionam em algum grau com os governos. Neste sentido, poderíamos indagar, dentre outras possibilidades: o fim da prática religiosa levaria a humanidade a uma dimensão superior de esclarecimento? O fim do analfabetismo, ou melhor, o pleno acesso à educação induziria, necessariamente, à inclusão social, além de privilegiar - acima de tudo - a ética e a moral? O fim da obrigatoriedade do voto produziria, por si, a purificação da persona pública? O primado do comportamento heterossexual teria impedido o aparecimento e a difusão da AIDS? Já que tanto tem sido dito a respeito do caos que a religião potencialmente produz mundo afora, certamente, havendo farto material corroborador de tal hipótese, embora defensor ardoroso da Ciência, sinto-me à vontade para contestar: a Ciência - ou de forma ampla, a Filosofia - é apta à condução do ser humano a uma era de paz e harmonia? Caríssimos(as), embora muitos de nós estejam bem distantes da condição de especialistas em quaisquer das Ciências Humanas que abarcam tais estudos, estamos em plenas condições de reconhecer que a tradição de nossos pais e avós já é suficiente para a compreensão do tipo de problema que temos em mãos: a corruptibilidade do gênero humano, a respeito da qual, em prosa típica de seu tempo, Agostinho de Hipona advogava: Escuta-me, ó meu Deus! Ai dos pecados dos homens! E quem isto te diz é um homem, e tu te compadeces dele porque o criaste, e não foste autor do pecado que nele existe. Quem me poderá lembrar o pecado da infância, já que ninguém está diante de ti limpo de pecado, nem mesmo a criança cuja vida conta um só dia sobre a terra? Igualmente, não será o caso de debatermos acerca da origem do mal, pois, em termos práticos, o que importa é que a espécie humana é introduzida no mundo sem quaisquer predileções apriorísticas, muito menos pelas condutas consagradas como oriundas de sólidos fundamentos na ética e moral, ou ainda, no que alguns denominariam de virtude. Isto posto, concluo com o reconhecimento de que, dentre tantos comportamentos reprováveis, a conduta pedófila pode ser encontrada na Igreja por uma razão muito simples: a instituição é um organismo social e, assim, é formada por indivíduos que estão na sociedade, oriundos de nossas próprias famílias, esta, sim, a matriz genética dos males que afligem a humanidade. Adicionalmente, deixo para reflexão: o que estaria ao nosso alcance fazer para que de nossas casas saiam pessoas comprometidas com a justiça, com a lei, com a razão, com o direito, reprovando a má-fé, a intenção dolosa, a conduta que tem por objetivo violar o direito de outrem, seja por meio de fraude, seja por indução ao engano, de certa forma, traindo a confiança da parte lesada na relação?



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