O faz de conta pode acontecer


A literatura universal já abordou a possibilidade de o faz de conta acontecer de diversas formas, rendendo boas adaptações ao cinema, ao teatro e, principalmente, à telinha; embora, claro, tenham sido também exploradas por outras das artes que nos encantam e, às vezes, chegam a entorpecer como, por exemplo, a poesia e a música. Quem não se lembra com certa nostalgia das contribuições de Monteiro Lobato, Jules Verne e Eleanor Porter, dentre tantos que integram a legítima legião daqueles imortais que dão voz à criatividade e sabedoria dos deuses? Conscientes disso ou não, muitos de nós foram profundamente marcados pelas mensagens que emergiram desses mestres do mundo da imaginação. Em certo sentido, é possível admitir que eles sejam os verdadeiros pais daquela ciência proscrita, a autoajuda, a qual de longa data leva às últimas consequências a noção de que nossa vida não passaria de um faz de conta, porque estimularam o inconsciente de tal maneira que ficou muito difícil refutar a ideia de que a realidade surgiria primeiro na mente daquele que concebe os mecanismos pelos quais ela será viabilizada. Certamente, a criança é a evidência de que essa filosofia não deve ser rejeitada de forma displicente. Dentre as potencialidades, em regra, como cada um de nós se tornou o(a) profissional que é? Não teríamos ainda em tenra idade nos extasiado ante a imagem - o faz de conta - de que éramos médicos, engenheiros, pilotos, professores, escritores, atores...? Por outro lado, é inquestionável que as nossas criações e, assim, o desenvolvimento que obtivemos em nossos campos de atuação resultaram de muito esforço. Possivelmente, foram horas e horas de sacrifícios aparentemente infindáveis para que aquela imagem acalentada pela criança de outrora se materializasse. Embora a contragosto de alguns dos representantes da Academia, não temos como ignorar alguns cases muito interessantes: o operário que sonhou em ascender à presidência da nação; o ambulante que desejava construir uma grande rede de distribuição; o atleta que queria romper com os paradigmas dos insuperáveis recordes estabelecidos; e, recordando-me de duas pessoas bem próximas, o engraxate que ousou fazer história e o ascensorista que, inquieto com a consolidação de seu negócio, tornou-se persona pública... O que eles têm em comum? Creio que não seja tão difícil perceber. Sonharam, sim, quando cabia fazê-lo, e transpiraram muito para que o acalentado faz de conta, de fato, acontecesse. Segundo avalio, a implicação natural é que a psicologia que funciona é aquela que associa ação à imagem, em outros termos, ainda que colocado figuradamente, trata-se da imaginação criativa - imagem em ação. Ou, em terminologia técnica, isso não passaria de recurso a um velho conhecido nosso, o planejamento. E não apenas por idealizá-lo, mas por investirmos com afinco em sua realização. Essa reflexão fez com me recordasse de um dos raciocínios que defendo e que tenho apontado direta ou indiretamente desde o lançamento desta seção: em boa medida, nosso presente resulta daquilo que fizemos ou deixamos de fazer. O que significa que as ações ou omissões de hoje estão, por assim dizer, construindo o nosso futuro. A boa notícia é que, em algum grau, a correção de rumo é possível na maioria dos casos. Pense nisso!



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