Viagem no tempo, o segredo sem mistério


Por mais que os autores do gênero ficção e o cinema tentem se reinventar, a genialidade dos antigos mestres da arte, ao que parece, não o permite, exceto por algumas das boas e cada vez mais raras exceções que despontam aqui e acolá. De fato, tem sido relativamente comum a frustração dos amantes da estética ante a vulgarização do belo, conceito que nesta sociedade se rende à fúria das bilheterias, apenas. Naturalmente, não se trata da defesa da arte pela arte, já que o modelo econômico vigente exige alguma compatibilidade entre oferta e demanda. Na realidade, o que precisa ser levado em conta é que, embora seja justificável o aspecto comercial das produções, não há razões plausíveis para que a humanidade seja entregue ao cativeiro da aculturação. É inegável que, em meio a outras formas de expressão, alguns dos clássicos da literatura, sob o pretexto de entreter, apresentaram críticas severas às questões urgentes de seu tempo, propondo-se a denunciar abusos ou mesmo a sugerir mudanças, certamente, havendo ainda obras que conseguiram antecipar tecnologias, como, por exemplo, o rádio, a televisão, o computador e o celular, dentre os recursos que se propõem a facilitar a vida moderna. Neste sentido, até mesmo, os roteiros que exploraram os acidentes que poderiam advir do uso inadequado da tecnologia - v. A Máquina do Tempo, de H. G. Wells; Túnel do Tempo, de Irwin Allen; e, por que não, Em Algum Lugar do Passado, de Richard Matheson - são veementes ao realçar que na vida há acontecimentos que seriam irreversíveis por natureza, a despeito do quão ardorosamente desejássemos mudá-los, para que fossem lançadas as bases de um futuro diferente. Pensar a respeito dessa possibilidade, a da viagem pelas ondas do tempo, não é tarefa das mais simples, visto que alguns paradoxos, ainda que aparentes, são inevitáveis. Seria possível a alguém o encontro consigo mesmo em tenra idade? O que aconteceria ao neto, se o avô fosse assassinado antes mesmo que tivesse filhos? Qual o reflexo das mudanças, se possíveis? Será que como imaginaram Eric Bress e J. Mackye Gruber, em Efeito Borboleta (uma produção sofrível, apesar da rica temática), as lembranças da vida anterior se preservariam? E o que dizer quanto ao futuro? Se fosse possível examiná-lo, ele se confirmaria ou o simples fato de tê-lo focalizado já seria suficiente para a mudança, à semelhança do que apregoam algumas das construções que se nos apresentam a partir dos trabalhos de Richard Feynman, em física quântica? E, já que esbarrei no tema da viagem no tempo, afinal, o que é o tempo (esta criatura eterna e indomável), existiria em si ou não passaria de uma estratégia para organização da vida humana? Por certo, não tenho a pretensão de esclarecer questões tão complexas, e mesmo que pudesse fazê-lo o espaço é reconhecidamente impróprio para tal intento. Entretanto, fundado na caminhada que me coube desenvolver, não vejo alternativa à constatação de que, em certo sentido, a máquina do tempo existe, sim, e que ela é quase que totalmente inepta no dia-a-dia. Digo-o desta forma porque a tecnologia disponível, embora nos permita esquadrinhar o passado e antecipar as possibilidades, é incapaz de propor de forma automática um curso de ação que possa nos brindar com um futuro realmente melhor, tarefa esta que continua exigindo muita disciplina daquele(a) que tem por objetivo a viabilidade e a vanguarda em seu campo de atuação. Em meio às potencialidades, deter-me-ei na reflexão, aquela faculdade que compreende a "concentração do espírito sobre si próprio, suas representações, ideias, sentimentos", e também o "pensamento, a consideração e a observação que resultam de intensa cogitação". Para muitos, é válido também acrescentar a meditação, a oração ou a reza como invólucro a essa investida... Tal recurso, seguramente, nos põe em contato com universos temporais paralelos, pois, num lampejo, podemos vislumbrar uma vida inteira e compreender as principais razões pelas quais ocupamos o espaço presente, além de podermos perceber a direção que nossos planos tomarão, disso decorrendo que estaria aberta a possibilidade de reconfiguração do cenário. Então, concordarei com que a proposta é bem diferente daquilo que a ficção sugere, já que durante o processo permaneceríamos bem plantados no aqui e agora, mas, levando em conta que não dispomos ainda de nenhum mecanismo superior, não seria melhor se nos apressássemos a repensar a trajetória? Por outra via, considerando que o presente resulta em boa medida daquilo que fizemos ou deixamos de fazer, o futuro não está sendo escrito agora, nesse exato instante? Pense nisso!



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