O Prof. Antônio Lopes de Sá, certamente, um ícone para a Contabilidade, "despediu-se" nos últimos dias, "partindo" com a convicção de que deixara como legado, em especial, à classe contábil, o exemplo de uma vida dedicada à pesquisa e à transformação das células sociais, dentre outros feitos, que possibilitam a inscrição de seu nome no rol das personalidades que marcaram o mundo corporativo. É fato que suas ideias não alcançaram aceitabilidade geral, o que, contudo, não chega a ser problema, já que, se por um lado, "a unanimidade é burra", por outro, é na diversidade de opiniões ou nos desdobramentos elaborados a partir da confrontação de teses e antíteses que o conhecimento genuíno é erigido. Por certo, dentre aqueles que têm caminhado na Ciência Contábil, há os que encontram na produção científica do mestre a riqueza que subsistirá às futuras gerações, havendo outro grupo, no qual penso estar incluído, que, embora respeite e valorize sua história acadêmica, tem em uma de suas filosofias essenciais o diferencial que assegura, antes da defesa de construções teóricas tidas como líquidas e certas, a investigação como baliza de uma vida comprometida com a justiça e a verdade. Nesta perspectiva, devo reconhecer que a existência de opiniões variadas e, mesmo, contrárias na comunidade contábil somente foi possível porque o Emérito Professor, paralelamente à elaboração científica a que se dedicara, se sobressaíra também em construções filosóficas que direta ou indiretamente estimularam o pensamento crítico, impulsionando a muitos à ultrapassagem da dimensão técnica, a despeito de sua importância e necessidade, encaminhando-os ao assentamento de um espírito movido pelo ápice das reflexões cartesianas: cogito, ergo sum (penso, logo existo). Lembro-me saudosamente quando, há quase três décadas, tropecei em uma de suas obras, na realidade, um excerto sobre a História da Contabilidade e me vi devorando este primeiro material, fascinado pela qualidade da produção, além de perplexo ante a constatação de que o profissional da contabilidade devia e, seguramente, podia ser e fazer muito mais... Posteriormente, ficou muito difícil estabelecer se o Professor era melhor ao vivo ou nas páginas, já que em ambos os ambientes ele parecia conseguir uma distinção elogiável e, a cada novo encontro a exposição ao seu pensamento tinha o efeito semelhante ao de ser atingido por uma catapulta... O Prof. Lopes de Sá não caminha mais entre nós, contudo ele cumpriu de forma tão magistral o seu papel que pode descansar certo de que nada conseguirá impedir a evolução da Contabilidade, aliás, como nunca nada nem ninguém pôde fazê-lo, afinal, a realidade é a que é ou a que, em certo sentido, tem que ser... O Prof. Lopes de Sá "partiu", é fato, entretanto o seu espírito, a sua filosofia, ficará conosco. Sua voz continuará a ecoar em nossas cercanias, buscando ampliar o progresso da Ciência Contábil, cuja liderança ele assumiu, possivelmente, por ter entendido a lição de outro mestre, na verdade, a do mestre dos mestres: quem quiser ser o maior entre vocês, seja servo de todos... Insigne Professor; gratidão!
O legado de um grande mestre
Ariovaldo Esgoti
14/06/2010