Caro Professor, Escrevo estas breves linhas para expressar a saudade que sinto ante sua "passagem", pois, infelizmente, até que me visse privado do "convívio" com o mestre, não ousava imaginar que sua "partida" pudesse fazer tamanha falta, em especial, porque fora "mal" acostumado à realização de "exercícios" intelectivos intensos, devido à sua instigação habitual. Seus "discursos", embora impregnados com o ardor resultante do repúdio ao rumo que a Ciência Aplicada tomou nas últimas décadas, seja por rejeitar a postura do órgão máximo de nossa classe, seja pela não conformação ao modelo abraçado por alguns profissionais, agiam como um eficaz lenitivo ao entorpecimento que a tantos tem subjugado nesses "tempos" que desestimulam o "cógito" autêntico - aquele que é caracterizado pela franca autonomia. Tento imaginar o "incômodo" em que incorreria o Professor se pudesse acompanhar a continuidade de seu trabalho, particularmente, no que diz respeito às derradeiras investidas, pois os poucos que ainda se atrevem a difundir a oposição às recentes mudanças em nossa área, por certo, não fazem jus ao brilhantismo com que o mestre marcara sua "caminhada". Aqueles que pensavam já ter visto de tudo são ainda surpreendidos, vez por outra, com pérolas, como: "Sócrates era amigo da Filosofia, então o novo padrão contábil não decolará"; "Platão era discípulo de Sócrates, logo o Conselho Federal de Contabilidade não pode regular a matéria contábil"; "Aristóteles aprimorou a noção de ética, então o Contador deve seguir apenas o Novo Código Civil nas contabilidades de sociedades empresárias limitadas de pequeno ou médio porte"; "Teóricos da Contabilidade publicam artigos, portanto estão acima da lei"... Ah, saudoso mestre, suas "construções" eram e, na realidade, ainda são motivo de muita alegria... Como resistir a processos de raciocínio tão bem elaborados? Suas colocações, exceto por pequenos "apelos", que não chegavam a reduzir-lhes o brilho, perseguiam noções que escapam a alguns dos que permaneceram e tentam em vão continuar a sua obra... Explico-me: em vão, porque não aprenderam com o estimado professor, dentre tantas lições, por exemplo, que as conclusões que não decorrem necessariamente das premissas estabelecidas são, por assim dizer, inócuas. Mas, o que esperar de quem vive dominado pela "pressa", daquele que tem se preocupado apenas em alcançar alguma projeção ao "lado" da sombra do Professor e que, entre outros "deslizes", ainda se recusa a "ouvi"-lo? Sim, porque, se o fizessem, saberiam que o "problema" real não está nas fontes jurídicas do "novo padrão brasileiro de contabilidade", mas, na propalada eficácia que, para os que realmente o "escutaram" e que "provaram" das fartas demonstrações, não será alcançada tão facilmente, a despeito de quaisquer normatizações, prevalecendo o fato de que a "essência" do fenômeno contábil não é passível de apreensão por via legislativa... Em outros termos, que a Ciência não foi "sequestrada" pela lei... Ah, insigne professor, quis o "destino" que nossos caminhos não convergissem, visto que pendi ao fático, enquanto o mestre nunca se arredou da pesquisa, além de jamais ter pretendido que um modelo superasse ao outro, antes, complementando-se, segundo suas funções, mantendo ainda em perspectiva o ensino de que "cabe a cada qual o cumprimento de sua própria missão"... Seguramente, tenho muito mais a dizer, mas, para não extenuar o(s) destinatário(s), encerrarei, cumprindo um rito que nem mesmo a "correria" de hoje conseguirá desqualificar: guardarei "um minuto de silêncio" em sua memória, ansiando para que os profanadores de seu legado sigam o exemplo, enquanto refletem sobre suas "pobres almas".
Carta aberta ao Prof. A. Lopes de Sá
Ariovaldo Esgoti
28/06/2010