De acordo com as noções contempladas pela moderna psiquiatria, o fenômeno do déjà vu remete à "ilusão da memória que leva alguém a crer já ter visto alguma coisa ou vivido uma situação de fato desconhecida ou nova", na realidade, remontando ao pensamento de Platão, para o qual, por meio da anamnese, que para fins didáticos pode ser entendida simplesmente como "recordação gradativa que o ser humano tem das ideias que contemplou em estado puro", o indivíduo teria acesso ao conhecimento verdadeiro, concebendo-o, então como fruto da lembrança. Em certo sentido, experimentamo-lo com relativa frequência, visto que, seja na política ou economia, seja nas ciências aplicadas, é normal que fiquemos com a sensação de que já presenciamos dado evento, sendo muitas vezes difícil explicar a origem dessa impressão que nos toma de assalto. Nossos avós, ao que tudo indica, filósofos por natureza, detinham esse conhecimento, porque costumavam nos ensinar: "os políticos são todos iguais, promessa após promessa, quando chegam ao cargo, se esquecem dos antigos compromissos"; "o máximo que a propaganda consegue é tentar convencer alguém de que o inútil serve para alguma coisa"; "filhos rebeldes tendem a se tornar adultos problemáticos"; "quem sabe faz, quem não sabe ensina, e quem nem isso tem condição de fazer, critica"... Não estou seguro sobre se é possível concordar integralmente com a filosofia deles, mas, por certo, suas lições nos dão o que pensar, principalmente agora que estamos de novo em ano eleitoral, que convivemos com uma economia mutante e, dentre tantos desafios, que nos deparamos com a reformulação do papel do profissional da contabilidade. Com a proximidade das eleições, precisamos reavaliar nossa postura frente aos candidatos pelos quais poderemos optar, em respeito à moralidade, justiça, legalidade e transparência que devem nortear as políticas públicas, para que tentemos evitar o cumprimento daquele tipo de profecia, pela qual, apesar da troca de nomes, tudo permaneceria como dantes, na terra de Abrantes. Certamente, o cenário econômico continuará a impor desafios, visto que há uma variável psicológica que nele interfere de forma relevante, impedindo que modelos matemáticos e/ou estatísticos funcionem com a precisão desejada por aquela categoria de investidores que costuma se autodenominar de arrojados, com a implicação de que lhes restaria apenas a aposta em uma intuição superior. Quanto ao contabilista desses novos tempos, como reconheço com certa frequência, há um legítimo divisor de águas, pois o profissional que entendia tudo de contabilidade não consegue mais justificar sua permanência no mercado, apenas com base em sua história ou, em outros termos, em seu currículo, que, no máximo serviria para o registro nos anais da profissão contábil. Ao examinarmos quadros como esses é muito difícil escaparmos à impressão de que já presenciamos eventos semelhantes, porque nossa realidade tem se nos configurado como cíclica, ao menos, com base no referencial que construímos ao longo de nossa jornada: partidos e ideologias políticas parecem se fundir em uma mesma proposta, isto em termos práticos; empresas vêm e vão, e permanecem os eternos problemas administrativos; e, em meio a outros, a contabilidade ainda revela antigas fragilidades, como, por exemplo, a tendência de focalizar apenas o que já aconteceu, em muitas ocasiões, desprezando o fato inequívoco de que a única oportunidade de mudança está no presente e que a informação relevante para o usuário se refere ao porvir. Assim, fica a questão: construiremos um mundo - um futuro - diferente ou faremos com que a história se repita, por tomarmos as mesma decisões que nossos predecessores adotaram? Agiremos ou permaneceremos alheios ao clamor desses tempos que exigem dos que almejam sobreviver e, por que não, crescer, a renovação e a superação diárias? O que geraria um resultado melhor, a adaptação ou a resistência ingênua à força implacável da natureza? Pense nisso!
A sabedoria dos antigos em evidência
Ariovaldo Esgoti
05/07/2010