Parece infindável o embate entre a Evolução e a Criação ou, mais apropriadamente, entre o evolucionismo e o criacionismo, que atinge potencialmente o clímax com o processo dialético entre as obras Deus, um Delírio, de Richard Dawkins, e O Delírio de Dawkins, de Alister & Joanna McGrath. Essencialmente, a primeira se propõe a demonstrar que conceitos teológicos, no máximo, serviriam para distrair a pessoa que não dispõe de muito tempo para uma investigação séria sobre as origens e os desdobramentos da vida, enquanto a segunda, em linhas gerais, objetiva desqualificar a argumentação daquela, defendendo que Deus seria a resposta às grandes questões da humanidade. Tomando por base o método científico, é improvável que algum pesquisador consiga demonstrar cabalmente se a vida decorre de um processo espontâneo ou se teria sido provocada, em outros termos, se formas simples evoluem naturalmente para modelos mais complexos ou se os desdobramentos seguiriam a um design inteligente, persistindo ainda uma interrogação plausível sobre se realmente houve o lançamento de uma pedra fundamental para a origem da vida, com o pressuposto de que algo ou alguém o desencadeara, ou se tudo não teria sido nem mais nem menos que o resultado de flutuações quânticas... Essa linha de discussão faz com que me lembre de um desafio lógico ao raciocínio que vai da criança de ontem ao investigador de hoje, como, por exemplo: o que surgiu primeiro o ovo ou a galinha; qual o segredo, "Tostines é fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho"; a realidade é em si ou está sujeita ao pensamento do observador? O(a) leitor(a) atento(a) perceberá que algumas questões como essas podem não passar de procedimento tipicamente falacioso, pois a resposta quase sempre dependeria de uma premissa implícita que representasse o sustentáculo do raciocínio, gerando a ilusão de que nossas certezas decorrem de pressuposições. Buscando refletir sobre aquilo que no fundo é o que importa aos seres humanos e, neste sentido, mortais, além de falíveis, se vislumbrarmos um animal qualquer em meio às chamas que assolassem dada floresta, ouso imaginar que o consenso seria universal quanto à conduta mais adequada ao bicho: ou se adapta ao novo ambiente (cenário), procurando abrigo ou região mais saudável, ou permanece e paga pela decisão equivocada, preço este que pode literalmente representar a própria vida... Apesar da resistência ingênua de alguns, o Brasil experimenta uma genuína (r)evolução, seja quanto à forma como o Estado passou a fiscalizar as operações dos contribuintes, fechando o cerco dia-a-dia ao famoso jeitinho, seja quanto ao papel e à responsabilidade daqueles que exercem profissão regulamentada (administrador, advogado, contador, etc.), estimulando a reciclagem e o (re)planejamento; ou seja, o mundo não é mais o mesmo - a velha realidade ficou desfigurada... Como não recordarmos das antigas lições sobre a pré-história, principalmente, daquelas que tratavam da vida dos dinossauros? Reinaram por um bom tempo naquele ambiente, que parecia favorecê-los em tudo. Basicamente, tratava-se de devorar ou ser devorado. Havia também uma máxima que inclusive sobreviveu a eles: se o inimigo é mais forte, se possível, una-se a ele, senão fuja o mais rápido que puder... É como se presenciássemos o cumprimento da lei do eterno retorno, já que estaríamos em meio a um evento de proporções cataclísmicas e algumas das ferinhas de hoje desperdiçam um tempo muito precioso com lamentações, além de padecerem vitimadas por um dos grandes vícios da humanidade: a inércia. Aonde pretendo chegar? Simples! Como nossa floresta está ardente, sem que haja indicativo válido de que as chamas darão alguma trégua ao empresariado, então, resta saber: qual atitude é mais sensata, adaptação ou resignação? A primeira implica em agir o mais rápida e acertadamente possível, enquanto a derradeira procuraria tatear o mito da fênix, desprezando o fato de que tudo o que pode advir das cinzas, em regra, não passa de poeira... Com a palavra o tempo: ou o indivíduo se ajusta aos desígnios da natureza - que tende a ser implacável com a desatenção - ou aguarda a suspensão de alguma das leis naturais, na realidade, espera um milagre que reverta o quadro, embora seja incontestável que quando a mudança é necessária ela ocorre invariavelmente em benefício ou em prejuízo da espécie atingida.
Evolucionismo e criacionismo
Ariovaldo Esgoti
19/07/2010