O fator emocional tem conquistado maior atenção dos pesquisadores a cada dia, o que se confirma por um sem número de publicações acerca do tema. São tantas as opções que praticamente todos os "paladares" podem se servir de obras que buscam estabelecer uma relação (nem sempre necessária; às vezes, promíscua) entre emoção e saúde ou intuição, conhecimento, criatividade, sabedoria... De tão importante que é já foi inclusive qualificada como um dos tipos de inteligência que o indivíduo poderia aprimorar pelo "exercício". No "cardápio" podemos encontrar variantes da antiga filosofia oriental (com defesa vigorosa da espiritualidade pela via do equilíbrio), modelos que prometem o êxito pessoal e profissional (pelo desenvolvimento da inteligência emocional) e, em meio às demais ofertas, leituras de caráter científico que correlacionam principalmente emoção e saúde (pelo fortalecimento do sistema auto-imune e tratamento do transtorno de somatização, sem perder de vista outros desdobramentos como, por exemplo, elevação da performance e fortalecimento da memória). Apesar da frequência com que nos taxamos de "racionais", pesquisas recentes têm demonstrado que a tradição de nossos avós é mais atual do que costumamos reconhecer: "o coração tem razões que a própria razão desconhece", diziam... Nossas decisões, apesar dos contornos lógicos com que às vezes são justificadas, são devedoras muito mais ao turbilhão de emoções que nos permeia do que a qualquer outro processo pretensamente superior. Tomemos como exemplo o mundo empresarial - pequenas e médias empresas, para fins didáticos. Mesmo que o empresariado saiba da importância do planejamento estratégico (que deve se embasar em dados mercadológicos acurados), em regra, a pretexto de uma percepção diferenciada da realidade, o gestor usa e abusa da intuição (alguns chamariam a isso de "timing") por acreditar que as análises são dispensáveis ou dispendiosas demais. Se, por um lado, embora necessária, nem mesmo a contabilidade é capaz de evocar todas as informações que um processo decisório eficaz requer, por outro, queimar as etapas e apostar somente no "feeling" é atitude que despreza a sabedoria enquanto confere privilégios à tolice. Podem até ocorrer acertos, mas no fim o prêmio que o investidor receberá é uma passagem só de ida ao cárcere do "jogo patológico". Não faz sentido algum rejeitar o fato de que somos seres emocionais acima de tudo, havendo espaço em nossa vida tanto para aqueles sentimentos que nos agradam quanto aos que temos a tendência de rejeitar pelo aparente desagrado que produzem. No fundo é como se a Natureza soubesse que há situações em que precisamos nos ancorar em um estado de espírito elevado, enquanto outras exigiriam maior dose de cautela. Consideremos ainda o seguinte: os benefícios e, conforme o caso, os malefícios dos comportamentos otimista e pessimista. Qual dos perfis é mais benéfico em um processo criativo, por exemplo, de desenvolvimento ou aperfeiçoamento de um produto? E se o contexto fosse outro, digamos, se precisássemos de orientação para uma decisão de elevado grau de risco (poderia ser para uma intervenção cirúrgica ou, quem sabe, para investimentos financeiros)? Sou cético quanto às saídas do tipo "receita de bolo" que algumas "escolas" ainda oferecem, as quais são capazes de vender o Universo, sem conseguir entregar sequer um grão de areia... Talvez, por isso, ainda conserve certa predileção pelas lições da antiga filosofia, para a qual "nada é bom ou ruim em si", nossos julgamentos assim os converteriam. Como ensinou o sábio (afinal, nem só de contabilidade viverá o auditor): "Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou, tempo de matar e tempo de curar, tempo de derrubar e tempo de construir, tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de dançar, tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las, tempo de abraçar e tempo de se conter, tempo de procurar e tempo de desistir, tempo de guardar e tempo de lançar fora, tempo de rasgar e tempo de costurar, tempo de calar e tempo de falar, tempo de amar e tempo de odiar, tempo de lutar e tempo de viver em paz".
Em busca do equilíbrio
Ariovaldo Esgoti
13/09/2010