Fui compelido a esta reflexão após uma leitura agradabilíssima. O Prof. Paulo Dalgalarrondo, no livro "Religião, Psicopatologia & Saúde Mental" (2008), me fisgou inicialmente com o título de uma das seções da obra: Um balanço entre teoria e investigação no campo "saúde mental e religião" na contemporaneidade. O problema é que depois do contato com o autor não pude parar. Como quis terminar a seção iniciada para interromper a leitura somente na próxima, pois sou do tipo que não gosta de deixar capítulo inacabado, quando me dei conta havia devorado a obra, desde o princípio. Aproveitando aqui para recomendá-la aos que apreciam produção nessa área, trabalho este marcado pela técnica e imparcialidade. Tenho-a como uma das abordagens mais bem elaboradas que já manuseei sobre o tema. Naturalmente, o autor jamais pretendeu discorrer sobre Contabilidade ou demonstrações contábeis, mas, como em todo caso é o meio em que atuo, admito que tenha certa predisposição para trazer à profissão contribuições de outros campos do conhecimento humano... Um antigo mestre chamou este processo de "benchmarking"... Repensando a profissão contábil, que convive com um sem número de detalhes, especialmente quando o profissional abraçou as contabilidades societária e tributária, ocorreram-me duas perspectivas: ou o indivíduo encontra uma forma para se motivar, mergulhando nos dados e informações disponíveis sobre o que lhe interessa, ou se prepara para mudar de profissão, visto que o mercado não tolerará por muito mais tempo estruturas defasadas. Reconheço que é muito difícil não correlacionar a fé com este ambiente no qual o contabilista está inserido, porque para alguns pode parecer que o esforço de uma vida rui em instantes. Pense, por exemplo, nas antigas leituras, nos velhos livros, nos cursos superados, nas palestras desatualizadas, etc. O trabalho de reciclagem provavelmente será gigantesco. Lembro-me de uma situação interessante, logo que entrou em cena a Lei nº 11.638/07, um amigo desabafou: "Depois de todo o sacrifício para dominar o método de elaboração da DOAR, você está me dizendo que foi tudo em vão?"... Deu muito trabalho para convencê-lo de que o conhecimento ainda seria útil, tendo apenas que se adaptar ao relatório que a substituiria... Se adequadamente colocada, a fé pode facilitar essa transição - ela pode colaborar com o processo enquanto catalisador do conhecimento. Em vez de se render à desolação, o profissional pode perfeitamente bem buscar apoio no Sagrado e se agarrar com todas as forças à esperança de que conseguirá fazer a travessia... Alguns talvez questionassem: "Isto não passa de uma justificativa ingênua para se pôr em movimento... É efeito placebo, resolução mal estabelecida"... Mas, a motivação não é exatamente isto, uma desculpa que encontramos para apoiar a ação? O Dicionário expõe o mesmo princípio, apesar da sofisticação com que o faz: motivação é o "conjunto de processos que dão ao comportamento uma intensidade, uma direção determinada e uma forma de desenvolvimento próprias da atividade individual". Ora, se a pessoa obtém entusiasmo com recursos psicológicos peculiares ou, se no exercício de sua faculdade, recorre à fé (não necessariamente a institucionalizada), para ser transmutado em cidadão cônscio de seu papel e profissional engajado com as novas exigências de seu mercado, como poderiam dizer nossos avós: "O que as demais pessoas têm a ver com isso?". Contanto que o exercício de sua espiritualidade não se choque com o direito do outro, todos contam com o salvaguardo da Constituição Federal para a livre expressão de suas convicções. Resisti-lo em uma direção ou em outra, implicaria na adoção de uma postura ilegal, além do risco de tipificação da conduta como criminosa. Aliás, o que é condenável é justamente o dogmatismo, principalmente, o ingênuo - aquele que tende à defesa visceral de dada ideologia. E aqui entre nós, tal sorte de aberração pode ser encontrada potencialmente em todos os cantos do globo - às vezes, travestida de puritanismo ou com trejeitos de cientificidade. Retornando à aplicação do fator fé à Contabilidade, a remissão também decorre do fato de que alguns dos balanços divulgados apresentam informações tão enviesadas, que somente com grande fé para digeri-los. Sejam elaborados com as velhas regras ou com as novas, em muitos casos, chegar a alguma conclusão crível sobre eles, só pela suspensão de alguma lei natural - na prática, por um milagre. Realidade que põe em xeque mesmo o mais cético ou crédulo dos mortais.
Resolução, um ato de fé
Ariovaldo Esgoti
27/09/2010