Vivemos em um mundo de contradições. O indivíduo sincero normalmente amargará o peso de suas convicções até o último de seus dias... Na política em especial temos casos célebres: FHC titubeou quando questionado se acreditava ou não em Deus, comprometendo o seu desempenho naquele pleito; Dilma está a ponto de se declarar uma congregada mariana, já que finalmente percebeu a importância do apoio eclesiástico. O fenômeno é perfeitamente compreensível: temos a tendência de confiar naqueles que compartilham dos mesmos valores e convicções... Somente o tolo assumiria publicamente uma postura que é condenada pela sociedade em que vive, principalmente quando dependesse dela para ascender a alguma função pública. E isto por uma razão elementar: a média despreza o fato de que a nobreza de caráter não está relacionada necessariamente com a crença religiosa. Mas o que esperar de um mundo que privilegia o parecer em detrimento do ser? O belo e o doce têm nos encantado desde sempre, apesar do risco à saúde e virtualmente à vida. O espantoso é que o próprio cristianismo nasceu sobre assertivas como: "Ai de vocês hipócritas! Vocês são como sepulcros caiados: bonitos por fora, mas por dentro estão cheios de ossos e de todo tipo de imundície"... "O que entra pela boca não torna a pessoa impura; mas o que sai de sua boca, isto a torna impura... As coisas que saem da boca vêm do coração, e dele saem os maus pensamentos, os homicídios, os roubos, os falsos testemunhos e as calúnias". Reconheço que estou distante da condição de especialista no assunto, mesmo com as muitas horas que dediquei a esses estudos. Porém, como qualquer mortal bem intencionado consegue fazê-lo, percebo que os que de fato elegem nossos governantes são conterrâneos que supervalorizam a forma, as promessas e, dentre os expedientes usuais, as esmolas, posteriormente, vindo a padecer de uma espécie de amnésia em relação ao verdadeiro currículo do pretenso estadista. Precisamos encarar algumas verdades com urgência: o caráter é revelado pela biografia do sujeito, não necessariamente a formal e muito menos por sua crença em divindades, salvo se, por exemplo, fosse devoto de Dionísio ou Baco (deus do vinho, das festas, etc.); todo religioso fundamentalista é ateu na avaliação do(s) grupo(s) rival(is); o ateu tem o mesmo número de crenças dos demais - em regra, substitui a fé religiosa pela confiança na ciência, resguardadas as particularidades de ambas as esferas. Estou seguro de que há outras vertentes, mas considero adequada a contraposição do fundamentalismo religioso ao ateísmo ácido, porque ambos estão flagrantemente equivocados pelos extremos que representam, ao repudiarem o direito do outro, ignorando a premissa constitucional, que prima pela diversidade. Por vias distintas atingem o mesmo ponto: o dogmatismo ingênuo. Embora de forma regular não frequente os ofícios à parte de solenidades, conservo várias das antigas lições da teologia, que depois de revisadas se revelaram muito valiosas para a jornada que me coube realizar. Mantenho sempre em perspectiva as lições do apóstolo, pelas quais devemos "pôr à prova todas as coisas e ficar com o que é bom" e "conferir com interesse quais os fundamentos daquilo que se nos propõem". Parafraseando a máxima shakespeariana, "Crer ou não crer, eis a questão"... Por certo a vida fica mais simples quando acumulamos convicções, melhor dizendo, crenças, como as de que: há esperança para a humanidade; o mundo resistirá aos maus tratos que o ser humano lhe inflige; a família sobreviverá e se fortalecerá diante do desvalor que a ataca; a educação promoverá a evolução da sociedade; a justiça imperará no mundo; a política se tornará incorruptível; a verdade nos libertará... Agora, a minha predileta: a legítima noção de Deus é aquela que manifestamos por meio de pensamentos e principalmente da conduta.
Crer ou não crer, eis a questão
Ariovaldo Esgoti
18/10/2010