Estelionato eleitoral ou autoengano


Independentemente do nome, que, aliás, é a última coisa que interessa a respeito do tema, o "imposto sobre o cheque" ou a "CPMF" ou a "CSS" está a um passo de retornar ao dia-a-dia dos brasileiros. Se tudo correr "bem" será aprovado(a) ainda no próximo ano... Nossa presidente eleita acenou nesta direção assim que confirmou o sucesso no último pleito, apesar de não admitir com todas as letras que irá defender pessoalmente o retorno da "contribuição". Segundo ela, tudo não passaria de mobilização da "base", leia-se, daquela abstração que se utiliza quando é preciso dissimular alguma coisa em Política. O interessante é que desistiram do intento neste ano ao considerarem as repercussões desfavoráveis que a iniciativa teria sobre a eleição. Ela chegou a enfatizar em várias ocasiões que a reforma tributária, assim entendida a desoneração dos negócios, passaria a ser privilegiada... Esta situação faz com que me recorde daquele Projeto de Lei do Deputado Wladimir Costa, que busca introduzir no Código Eleitoral a tipificação do "estelionato", caracterizável, em regra, pelo descumprimento de "promessas de campanha". Segundo bem esclareceu o Deputado na ocasião: "Na luta pelo poder, os valores morais são relegados a segundo plano. Durante a campanha eleitoral, vale mentir, proferir falsas promessas, empregar meios ilícitos de captação de votos. Chega-se ao limite da irresponsabilidade". Bem, o projeto ainda não foi convertido em lei, se é que o será. Mas, usando-o como lente, nos deparamos com o seguinte quadro: a hoje presidente eleita - anteriormente candidata - prometeu trabalhar pela reforma tributária, além de deixar claro que estava descartada a criação da nova CPMF. Hum... Prometeu e já admite descumprir. Logo, sob aquele enfoque, estaríamos diante de um autêntico estelionato eleitoral. E com um agravante, parte da iminente autoridade máxima do país. Só que há um pequeno entrave nesse caso. Apesar de potenciais controvérsias semânticas, entendo que o estelionato genuíno somente ocorre quando prospera o ardil - o artifício do engano. Será que realmente acreditamos naquela e em outras das promessas? Seria possível que tivéssemos nos esforçado para crer que eles realmente queriam o bem da nação? Ou saberíamos desde sempre que prometem apenas porque "precisam" dizer alguma coisa? Outro ponto que deve, ao menos, abalar o nosso sono diz respeito às discussões veladas sobre o "novo" marco regulatório para as mídias eletrônicas, que têm como pano de fundo o desagrado de Lula, Dilma e Cia. sobre o papel da imprensa no país. Isto para não cogitarmos também a respeito das constatações "inverídicas" do Tribunal de Contas da União sobre irregularidades graves em obras do PAC, que não passariam de "normalidade administrativa", para o mentor da presidente... Vivemos em um mundo curioso. No jogo político, usualmente, vence quem mente mais e com mais convicção, isto porque "imploramos" para que nos entretenham, além de "querermos" um espetáculo fabuloso ou ansiarmos por acreditar no "faz de conta"... Podemos até não gostar das medidas que virão, porém uma coisa é certa, não mentiram para nós, no máximo, teríamos sido vítimas de mais um autoengano, recurso no qual a humanidade já pode se considerar catedrática.



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