Apesar de a investida ter sido recusada por São Paulo, Salvador e Porto Alegre, a nação tem sido estimulada a repensar o conceito de liberdade de consciência e de crença, por meio de uma campanha concebida nos moldes em que os EUA têm presenciado, juntamente com outras regiões do globo, com direito a veiculação em ônibus e outdoors de slogans que objetivam difundir as máximas preconizadas pela Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea). Por aqui não houve ainda a deflagração, exceto na grande rede, mas provavelmente é apenas questão de tempo até que o intento se concretize. Em busca de apoio, estimulam: "Diga não ao preconceito contra ateus". E fazem-no mediante quadros que visariam provocar a reflexão: em um, abaixo de Chaplin, retratado como o imortal Carlitos, está indicada em caixa alta a expressão "Não Acredita em Deus", enquanto ao lado percebemos Hitler, e abaixo "Acredita em Deus". A conclusão, também em caixa alta aparece acima e à direita: "Religião não define caráter". Na segunda imagem notamos a foto do momento em que ocorreu o ataque às torres gêmeas, com a conclusão: "Se Deus existe, tudo é permitido". Enquanto nas outras duas percebemos o que aparenta ser um presidiário com uma Bíblia nas mãos ("A fé não dá respostas. Só impede perguntas.") e a retratação de antigas divindades, incluindo Jesus Cristo ("Somos todos ateus com os deuses dos outros"). Vasculhando os principais sítios eletrônicos e, não menos importante, alguns impressos, encontramos os que apoiam irrestritamente a iniciativa, o que não chega a causar admiração, fazendo-o, contudo, a contrarreflexão lançada, dentre outros, pelo jornalista Fernando de Barros e Silva (v. Folha de São Paulo, Opinião, 12/12/2010), que se autodefine um ateu convicto e aproveita para revelar os equívocos de tal iniciativa, além das falácias veladas que permeiam aquela publicidade. O tema me pareceu oportuno, essencialmente por dois motivos: preparamo-nos para o Natal e de forma costumeira o fundamentalismo é associado à militância religiosa. O primeiro evento pela obviedade, crentes ou descrentes, todos sabemos (ou deveríamos saber) o significado da data, com manifesto respeito. No caso do segundo, assistimos perplexos a algumas atrocidades, que foram provocadas justamente por aqueles que deveriam defender a vida, já que representariam o seu criador. Aprendi bem cedo a valorizar o livre pensamento, mas, assim como o jornalista citado, não consigo perceber a investida da associação com sendo produtiva, porque, se é que a religião é a raiz de todos os males, a solução, ao que me parece, deveria se pautar em esforços pela melhoria da qualidade da educação de nossos filhos, o que o marketing certamente não consegue fazer. É preciso muito mais do que slogans e "jingles" para que o ser torne-se de fato humano. Percebo um reducionismo absurdo na tentativa, pois, ainda que duvidar da existência de Deus fosse a atitude mais sensata, em quê isto faria do indivíduo uma pessoa melhor? Será realmente possível que a nobreza de caráter seja afetada pela crença ou descrença em Deus? Ou se constituiria independentemente deste fator? Em quê o ateu (ou agnóstico) é mais íntegro do que o religioso, ou este o é em relação àquele? É preciso muita fé para admitir que o ateu, apenas por sê-lo, porta um caráter especial, e sua ausência flagrante para admitirmos que o religioso, somente pela sua condição, seja o receptáculo da virtude. Em outros termos, a espécie humana tem o dom de crer e descrer à vontade dos temas aos quais se volta, podendo se portar decentemente ou não, segundo o seu arbítrio, pelo qual escolhe as justificativas com que encobrirá o comportamento. Há que ser denunciado o fato de que, em regra, teístas e ateístas incorrem basicamente no mesmo erro ao defenderem suas convicções: esquecem-se de que o antídoto por excelência é o conhecimento e seu companheiro inseparável, o exemplo. Aliás, o próprio Cristo ensinou em dada ocasião: "Conhecerão a verdade, e a verdade os libertará". Temos também o eco de uma das lições de um dos antigos profetas judeus: "O jejum (ou a religião) que desejo é este, que: soltem as correntes da injustiça, rompam as cordas do jugo e coloquem em liberdade os oprimidos". É impossível não notarmos a contradição de ambos, visto que, se estivessem realmente seguros de suas virtudes, convenceriam pela experiência - pelo exemplo de vida. Em vez de invadir nossos domicílios com televangelismos e venda ambulante ou de poluir ainda mais as cidades com cartazes e outdoors (que inclusive ameaçam desrespeitar o outro), poderiam investir no apoio à cultura e à educação, maciça ou individualmente, e contribuir para a promoção dos menos favorecidos, apostando que, se cultivados de forma adequada, poderão surpreender a si mesmos e à nação. Como toquei nessas questões, o que dizer dos símbolos religiosos em repartições públicas? Ora, se o objeto de culto do outro, que está incrustado em nossa tradição política, escandaliza-me, isto não significaria, por exemplo, que estou inseguro de minhas aparentes convicções? Se, de fato, tenho uma compreensão superior da vida, não deveria ser natural para mim a convivência com as diferenças, em especial, quando o outro não atingiu ainda o mesmo grau de esclarecimento? O tema é por certo muito amplo, além de espinhoso, mas liquidemo-lo com a invocação de que neste Natal apreendamos o espírito da compreensão e da tolerância, que saibamos estender as mãos àqueles que precisam desesperadamente do que somente nós podemos oferecer, que nos esforcemos para construir pontes de convergência e que nos especializemos na divina arte do diálogo cortês... E assim o pode ser porque, apesar de nossas potenciais descrenças, cremos que o ser humano é viável e que a vida é preciosíssima, ainda que seja breve; o que nos leva à constatação de que, enfim, o que nos une é a fé - não necessariamente a religiosa, claro.
No limiar do fundamentalismo
Ariovaldo Esgoti
20/12/2010