Discernindo a realidade


Vez por outra me deparo com discussões sobre se a realidade é ou pode ser algo à parte de nossas interpretações. São exposições a conceitos que me fazem recordar os saudosos tempos em que a professora de literatura indagava, aproximadamente: Queridos, o significado está no indivíduo ou no objeto de estudo? Certamente, esta foi uma época memorável, e tais lições, ao lado de outras que a vida viria a oferecer, acabariam levando à formação de uma consciência que, em vez de se pautar por certezas, privilegiaria o questionamento, no fundo, o movimento em busca do real - independentemente do que pudesse estar na ponta do arco-íris. É claro que foi preciso superar a fase dos jogos infantis, como, por exemplo: Se o indivíduo fechar os olhos a pedra ainda existe? Porque, se existir, ela é em si; caso contrário a realidade estará nele... Atualmente, não muitos apreciam este olhar, afinal os compromissos potencialmente infindáveis parecem ameaçar o relógio, que continua preso ao mesmo número de horas... Ficamos com a impressão de que há pouco tempo para estudar, que se pararmos para pensar na vida ou no mercado, há o risco de sermos atropelados pelo bonde da história... Podemos até não gostar das leis da natureza, mas isto não faz diferença alguma: se as condições forem propícias, o vendaval arrasará, as chuvas inundarão, os vírus e as bactérias irão se proliferar (cada vez mais resistentes); a concorrência esmagará (você acha que não? então, revise os estudos sobre a seleção natural)... Nossos dias têm exigido um olhar crítico, a capacidade de considerar que se, por um lado, existe realidade à parte do sujeito, por outro, ele lhe confere significado, o que faz com que certo aspecto de sua essência se forme a partir deste movimento de autoreflexão. Assim considerado: Há chances plausíveis de que encontremos a solução de todos os males numa cápsula? Se alguém nos oferecer acesso a um método infalível, devemos investir nossas economias nele? Como se depreende de um dos enunciados da Lei de Murphy, é razoável que apostemos na melhor saída, se algo realmente pode dar errado? Por certo, vivemos em tempos que exigem a consciência livre, a capacidade de apreender o real e discernir entre o bem e o mal. Só que não o alcançaremos ingerindo elixir, poção ou chá. É preciso que superemos o abismo das vãs convicções que nos cerceiam, progredindo em direção ao pico da sensatez. Sim, é simples, mas não é fácil. Talvez, por isso, alguns se perdem pelo caminho. Recusam-se a perceber o óbvio. Como ensinou o poeta: Se correr o bicho pega. Se ficar o bicho come.



Lista completa de publicações