Apesar da manifesta preferência de alguns autores pela catalogação do que concebem como estruturas ou dimensões do conhecimento, cuja compilação revela muito mais sobre o estilo do pesquisador em questão do que sobre o conhecimento tomado em si mesmo, refletirei com brevidade sobre o tema de forma a privilegiar suas qualificadoras, que, segundo avalio, são os pontos relevantes dessa equação, ao menos, em benefício da práxis. Esta postura, naturalmente, não implica no desprezo à importância de se considerar os fatores estratégicos e o papel da administração, a cultura, os valores e as estruturas organizacionais, a administração de recursos humanos, os sistemas de informação e a mensuração dos resultados, e, dentre as possibilidades, a aprendizagem ambiental, ou, ainda, as variáveis pedagógicas, como sentido, instrução, formação, didática, etc. Primando pela objetividade, talvez seja o caso de estabelecer de forma direta que antes da instalação do conhecimento é preciso que percorramos duas fases, no mínimo: o acesso a dados corretos e sua organização de tal maneira que se nos disponibilizem informações confiáveis, as quais deverão ainda contar com o apoio de uma das faculdades do ser humano, que nem sempre é considerada com propriedade: a intuição - em especial, a que decorre da elaboração de conteúdos assimilados (previamente). É fato que estamos expostos a uma avalanche de dados praticamente durante todos os dias. Esta característica da sociedade contemporânea nos leva à utilização de filtros para seleção daquilo que deve ser retido e, por consequência, do que será descartado. Não fosse isto possível, sucumbiríamos ante a uma espécie de overdose cognitiva... Às vezes, pode parecer que não temos limites, mas, por certo, nossas estruturas cerebrais precisam de períodos para adaptação. Alguns círculos podem ainda se interessar pela investigação sobre se o conhecimento que detemos da realidade se deve à apreensão do objeto em si, ao significado construído ou elaborado pelo sujeito ou, ainda, ao manifesto pela linguagem. Mas, no dia-a-dia é muito difícil resistir à constatação de que o conhecimento do qual somos portadores se pretende apto a desvendar o alvo de nossas atenções, em franca cumplicidade com a coisa - naquilo em que ela é, mesmo que em potência. Curiosamente, encontramos até aqueles que investem no velho mantra do Olho de Thundera, entoando de forma incansável: "Espada Justiceira, dê-me a visão além do alcance". Tolhidos por uma ingenuidade que raia à patologia, os tais imaginam que para demonstrar a multidimensionalidade do conhecimento bastaria gritar o encanto aos quatro ventos. Dentre outros, desprezam o fato de que mesmo as construções mais elaboradas do giro linguístico não passariam de abstrações, cuja existência é abarcada apenas pelo imaginário do sujeito. O problema, se é que existe, não estaria no processo, propriamente dito, e sim em sua trajetória autômata ou, quem sabe, anômala; em outros termos, na existência de filtros ignorados pelo sujeito, que poderia perfeitamente bem tentar se dirigir em vão ao seu destino, insistindo em combater a aparente resistência do fluxo da vida, que, nesta hipótese, se revelaria por meio de percalços quase que insuperáveis. Devo reconhecer que não há fórmula cientificamente estabelecida para fazê-lo, mas há que se respeitar as lições que ecoam, por exemplo, de antigas tradições filosóficas: o sofrimento, embora inarredável, pode ter suas causas suplantadas pela sabedoria ou conhecimento verdadeiro. Sendo possível conceber, para fins didáticos, que sofrimento é todo desconforto provocado por situações que reclamam nossa atenção, exigindo uma pronta decisão, que além de nos marcar profundamente, poderá assinalar com veemência os que estão à nossa volta. Se assim o é, ainda que brevemente colocado, resta saber como nos posicionaremos ante a esses filtros ou atalhos dos quais nos valemos na organização dos dados coletados ou daqueles com os quais esbarramos no dia-a-dia, levando em conta que as informações relevantes são aquelas que nos aproximam dos objetivos que realmente valem a pena. Necessariamente, o processo não é curto, mas também não precisa ser tão longo, a ponto de se inviabilizar... Afinal, de quanto tempo precisaremos ainda para o despertar?
Dimensões do conhecimento
Ariovaldo Esgoti
21/02/2011