Pelos séculos, o comportamento reacionário tem demonstrado sua razão de ser: no mínimo, serve para induzir à reflexão. Se houver alguma plausibilidade em suas postulações, poderá promover a espécie, de certa forma, cumprindo o seu papel na seleção natural. Isto porque, somente o organismo adaptado sobrevive ao tempo - implacável. Aliás, esta lição nos é ensinada pelos extintos dinossauros que, incapazes de processarem as mudanças do meio ambiente, padeceram ante a uma obstinação inglória. Em certo sentido, cavaram sua própria sepultura ao resistirem aos sinais dos tempos, pelas mudanças dramáticas que submeteriam o velho e confortável habitat. Às vezes me pego em franca ponderação acerca do que, por exemplo, o pterodátilo cogitaria, caso pudesse entender o mundo da forma como alguns se esforçam por fazê-lo. Num sobrevoo, ao notar as rápidas mudanças infligidas à natureza, poderia indagar: Mas, meu Deus, por quê? O mundo estava tão bem, isto realmente tinha que acontecer? Não, não, e não. Precisamos nos mobilizar contra os céus. Eu prefiro o mundo tal qual era... Mais um pouco e gritaria: Eu tenho a força!... Ah, se conseguisse apreender, ainda que por um milionésimo de segundo, que a vida simplesmente é, a despeito de suas preferências. Não sofreria em vão. A energia despendida poderia ser usada de forma produtiva na busca de opções viáveis à perpetuidade - sua e de seus pares. Mas, nem todas as feras revelam tal virtude. Algumas preferem beber do elixir nietzschiano que, na melhor das hipóteses, serviria à perda do contato com a realidade e à desagregação da personalidade. Como se encontram no estado de incapacidade relativa - sem o perceber, claro - ignoram por completo o curso das águas, mesmo nas raias do abismo... Tal não foi a sorte de outras espécies. Adaptáveis, reconheceram o prenúncio de novos dias e, em vez de focarem as glórias do passado, privilegiaram a sensatez, preparando-se para a tormenta, afinal compreendiam, ainda que intuitivamente, que, segundo as lições de nossos pais: "após a tempestade, vem a bonança"; e "o pior cego é aquele que não quer ver"... Lembro-me ainda de um velho jingle: "Se seus cabelos começaram a cair, não adianta disfarçar...". Ou seja, por mais dura que a realidade pareça, ela é sempre preferível ao engodo... Bem, estou ciente de que nem todos concordarão comigo, pois até já me lançaram insights como: "A ignorância é uma bênção!"; "Era feliz e não sabia"... É muito difícil resistir à filosofia do poeta: "A beleza está nos olhos do observador". Mas, o que pode ser feito quando sua visão se distanciou de tal forma da realidade que acabara criando um mundo paralelo? A solução talvez passe por uma dessas novas abordagens psiquiátricas, a "eletroconvulsoterapia". Sim, choque. Mas, de informação e conhecimento, naturalmente. Daquele tipo que liberta, de fato, a mente e o espírito. Não por especulação ou lucubrações, e sim pela conscientização de que o mundo não é melhor ou pior em função do controle que detemos das circunstâncias da vida, até porque controlamos muito pouco ou praticamente nada.
Percepção, conhecimento e adaptabilidade
Ariovaldo Esgoti
07/03/2011