É genético


Quem não passou ainda pela experiência - ou acompanhou alguém próximo - de, ao ser avaliado por dado especialista, ouvir indagações como: Há histórico semelhante em sua árvore genealógica? Algum dos pais ou avós apresentou o mesmo quadro? Houve sintomas similares em linha colateral? E quanto aos descendentes? Mesmo antes do mapeamento do genoma humano a tradição médica consagrava a noção de que as chances de o indivíduo apresentar certa patologia cresciam proporcionalmente à manifestação em sua parentela, prenunciando nossa herança genética e, em certo sentido, flertando com o determinismo. Nos anos recentes temos visto de quase tudo. Há pesquisas que apontam a preponderância dos genes na definição do tom da íris, passando pela tendência de desenvolvimento de doenças cardíacas e de formação do caráter criminoso até ao grau de agressividade que usualmente marca os gêneros. É como se nos deparássemos com um revival animista, de viés esotérico, sobressaindo-se, assim, a convicção de que o livre arbítrio receberia influência significativa do mundo dos espíritos ou dos genes, o que dá quase no mesmo, porque somos estimulados a invocar o invisível para nos auxiliar na compreensão do por que as coisas são como são. Haveria o gene da destreza, da inteligência, da compulsão, do amor, da fé e, em meio ao cabedal, ainda que numa espécie de corruptela, o egoísta. Enfim, já não precisamos mais apelar ao mundo dos espíritos, basta privilegiar o jargão científico na descrição ou mesmo justificação dos comportamentos, em flagrante sincretismo hermenêutico. Nossa sociedade realmente é contraditória. Num instante, defende às vísceras, por exemplo, o secularismo e a democracia, contrastando-os ao totalitarismo e, dentre outros modelos, à teocracia. Em seguida, festeja a diversidade, a tradição e o direito dos povos aculturados - melhor dizendo, das nações cujo modelo cultural destoa daquele que a civilização globalizada consagrou. Certamente nos encontramos num dilema. Em regra, concordamos que é nosso dever a defesa do bem comum. Mas, o que fazer quando a nossa noção de bem diverge daquela defendida pelo grupo alvo de nossos estudos, análises e críticas? Como deveríamos nos portar diante da constatação de que eles têm como normal e aceitável o que pode nos parecer repugnante? O Direito e a Justiça, de fato, são universais? Se perguntássemos aos antigos é possível que respondessem em uníssono: Que seja feita a vontade do Alto. Ou, Só Deus sabe... Já nossas mentes mais brilhantes, preterindo a tradição, provavelmente recorreriam a enunciados como: Estatisticamente, os genes dominantes tendem a... As mais bem elaboradas pesquisas têm concluído que o gênero humano é caracterizado por... A verdadeira Ciência não tem respostas definitivas, mas o que não se submeter ao seu crivo é, na melhor das hipóteses, relativo ao 'mythos'... Então, seguindo esta, por assim dizer, tendência: Você tem alguma dificuldade que resiste vigorosamente às investidas? Por mais que se empenhe a equipe parece não alcançar seus nobres ideais? O mercado está relutante ou indiferente ao seu produto ou serviço? O governo não se esforça para ser parte da solução, preferindo levá-lo à sangria? Não se preocupe demais, o problema pode ser "genético". A solução? Mantenha a calma e, se necessário, dentre as possibilidades, dê vazão aos "genes (talvez) recessivos" da atitude, da motivação, da empatia, do planejamento, da intuição.



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