Raciocínio falso


Segundo esclarece o Dicionário Houaiss, falácia é "qualquer raciocínio falso que simula a veracidade", induzindo o sujeito alvo a ruir ante a trapaça - ao sofisma, cujo enunciado é ainda mais contundente: "argumento concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade, que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta, na realidade, uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa". Certamente, é possível discorrer sobre os aspectos conceituais da temática por horas a fio e ainda não conseguir alcançar o intento que deve prevalecer nesta reflexão. Assim, tentarei atingi-lo por outra via, colocando uma lente que amplie em algumas vezes os contornos deste flagelo que desde tempos imemoriais assola a humanidade. Vejamos alguns exemplos elucidativos. "Há acidentes em que vítimas padeceram porque o cinto de segurança as acorrentou ao veículo em chamas, então, o uso de cintos de segurança deveria ser abolido". "É razoável a lista de servidores que não trabalham ou que usam mal o tempo em serviço, assim, não deveriam mais haver cargos públicos nem contratações de quaisquer espécies". "Muitos processos demoram anos na Justiça, logo, ela é dispensável". "Certo indivíduo consumiu uma aspirina e veio a falecer, portanto, o comprimido é letal e deveria ser banido da lista de medicamentos autorizados, cometendo crime quem recomendasse o seu uso ao paciente". "Alguns profissionais (contadores, advogados, administradores, economistas, engenheiros, médicos, professores, etc.) desconhecem os mais básicos preceitos de suas atividades, então, as profissões deveriam ser desregulamentadas, podendo vir a exercê-las quem revelasse aptidão para tal". "Aviões sobrevoam prédios e residências. Como podem cair a qualquer instante, não deveriam mais decolar. Aliás, já que alguns, de fato, caíram, quem se atrever a adentrar em uma dessas aeronaves, especialmente, para pilotá-las deveria ser considerado assassino em potencial". "Políticos se envolvem em escândalos por desvio de verbas públicas, que só podem ser desviadas porque estão lá à disposição, visto terem sido arrecadadas. Portanto, não só tem que ser abolido o uso do orçamento público, como o Estado não deveria mais arrecadar, ou seja: abaixo a tributação". "O trabalhador tende a contrair dívidas que não poderá pagar, o que confirma que o apoio ao crédito é medida que estimula o estelionato". O discurso preferido de alguns políticos: "Há muita miséria nesta nação. Os juros são simplesmente absurdos. A concentração da renda compromete o futuro de nossas crianças. O cidadão tem o direito à vida digna e à Justiça. Portanto, votem em mim"! "Tímidos e extrovertidos desrespeitam a lei, roubam e matam. Se ambos fossem presos ou, quem sabe, sentenciados à pena capital, a sociedade estaria mais segura". Mas, a propósito, quem iria aplicar a sentença e para quê, nestas hipóteses? "Ônibus, caminhões, carros, motos e, dentre as possibilidade, até bicicletas atropelam e matam. Assim, têm que sair de circulação o mais rápido possível". Como a lista poderia prosseguir indefinidamente, vamos ao que interessa? A tragédia em Realengo foi causada pelo fácil acesso à internet, certo? Errado! As informações que poderiam tê-lo inspirado estão disponíveis também em bibliotecas públicas e em igrejas. Podemos considerar ainda o velho paradoxo da faca: ela serve para quê, para perfurar alguém ou para passar a manteiga no pão? Hum, ocorreu-me mais uma: "Como ele foi se informar via internet, isto significaria que o programa de inclusão digital é essencialmente falho, além de que estaríamos diante de uma usina de delinquentes"? A tragédia em Realengo foi causada pelo fácil acesso a armas de fogo, certo? Errado! Aconteceu porque alguém, no pleno gozo de suas faculdades, decidiu assim fazê-lo, planejando acuradamente seus passos. Aliás, visto que não conseguiria adquiri-las de forma lícita, foi buscá-las no mercado que continuará fornecendo a quem quiser dele se valer no futuro. A tragédia em Realengo não ocorreria se ninguém mais pudesse adquirir armas de fogo por meios lícitos, certo? Errado! O arsenal é amplo: foice, facão, canivete, marreta, martelo, alicate, chave de fenda, etc. O que dizer ainda dos venenos letais que não são tão difíceis de se adquirir ou, mesmo, de se confeccionar com misturas caseiras? Na falta de armas de fogo, alguém com aquela capacidade de organização e planejamento não poderia ter usado até arco e flecha ou explosivos? Bem, aonde está o problema, então? Como diria Arthur Conan Doyle, pela boca do imortal Sherlock Holmes: "Elementar!". O problema sempre esteve no indivíduo. Afinal, quem é que toma as decisões no dia-a-dia acerca do que é certo ou errado, do que é digno de ser perseguido ou do que deve ser combatido? Naturalmente, não convém perguntarmos aos defensores se o marginal o fez por culpa ou dolo, porque provavelmente invocariam distúrbios psiquiátricos em sua defesa, intentando torná-lo inimputável. Repugnante, é verdade, mas é parte da lida deles. Reconheço que é necessária muita paciência diante das ideias dos falsários de plantão - oportunistas que vagueiam em busca de ocasiões para promoção pessoal. Se fosse verdade que privilegiam a coerência e, desta forma, a correção e o bem de todos, retirariam da sociedade ou, ao menos, passariam a combater com mais vigor, tudo o que comprovadamente faz mal ao indivíduo, começando com a venda indiscriminada de bebidas alcoólicas, cigarros e, por que não, carros velozes... Quem sabe, ainda, corrupção, descaso, tributação excessiva, etc. Logo, que lição pode ser tirada daquela tragédia, em especial, ao voltarem à tona as discussões em torno do estatuto do desarmamento? Vejamos. Dado indivíduo, intentando cometer um crime, sem conseguir se armar no mercado lícito, busca no paralelo o armamento de que necessitava ou pelo qual podia pagar. Hum, a constatação: as regras existentes se revelaram adequadas para frustrar o criminoso, naquela via. Contudo, decidido que estava, faria o que tivesse que ser feito para atingir o seu fim, seguindo à margem da lei. Que fique registrado, assim como vários dos colegas, não tenho arma de fogo e, provavelmente, não irei adquirir uma. Entretanto, se ou quando viesse a ser necessário, como, aliás, ocorre, realmente, com alguns, gostaria de ter o direito assegurado. É preciso deixar a hipocrisia de lado e assumir que, quando a vida do ser humano ou de alguns dos seus está em jogo, é natural que se busque anular a ameaça, principalmente, quando a diplomacia já não surte efeito e o Estado é incapaz de se fazer onipresente. Ademais, a ausência patente do Estado tem servido, na realidade, para incentivar invasões de propriedades, inclusive produtivas, em franca ameaça aos que ali ou dali vivem. De fato, esses movimentos sociais são contados entre os poucos que sairiam lucrando com a proibição plena ao porte e à aquisição de armas, porque ninguém mais poderia resisti-los, estando assim por via indireta legitimados o saque e a depredação... Enfim, com a palavra a turba dos direitos humanos.



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