Legítima defesa ou santa indignação


A sociedade brasileira está, sim, muito preocupada. E não é sem motivos que assim se vê, porque diante da clara perseguição pela imprensa a um de seus congressistas, o Senador Roberto Requião - flagrante vítima de bullying (conforme suas palavras) - literalmente precisou encarnar ninguém mais nem menos que o próprio Cristo. Sem dúvidas, tal quadro se agrava em função das referências invocadas pelo nobre estadista, que aproveitou a ocasião para explorar um de seus divinos dons. Refiro-me à habilidade profética, aquela faculdade manifesta pelos santos para vaticinar o fim de dadas eras. Somos enviados à chacina em Realengo, cujo protagonista teria agido em legítima defesa, ante aos abusos que sofrera naquele lugar, ou - quem sabe - teria sido acometido por mal súbito, que lhe privaria - ainda que momentaneamente - da razão. Torço para que ele não tenha adquirido ainda o arsenal derradeiro, porque, se o tiver feito, o Senado está a um passo dar o último suspiro. O risco de virem a ser martirizados é, no mínimo, plausível, já que nosso representante demonstrou estar na iminência de extravasar todo o sofrimento pela perseguição - injusta - que uma pobre alma pode suportar. Não menos importante, a correlação com o messias judeu nos leva a rememorar um dos marcantes capítulos da história da humanidade. Somos remetidos àquele episódio em que ele se vê tomado por santa indignação e desfere um golpe mortal nos saltimbancos - plantonistas às portas do templo. Por certo, a trajetória do mestre judeu dispensa comentários, bastando que consideremos o fato de que, se a encenação contém algum resquício de verossimilhança, a vida do estadista estaria realmente em perigo. Ele sabe que poderia estar à beira da crucificação e, ao que tudo parece indicar, estaria disposto a se entregar pela salvação de sua causa. Bem, neste instante, não me é possível cogitar sobre qual dos papéis ele de fato privilegiará, visto que se excluem mutuamente. Ao menos, é o que ouso imaginar. Mas, podemos estar seguros de que o grande vilão deste folhetim é de novo a infame imprensa, esta sádica que não tem outro passatempo que não seja o tormento de inocentes. Será que nunca ocorreu a esta vilã que certas questões não devem ser levantadas? Se ele apenas defende o seu direito, com o instrumental conferido pelo próprio legislativo, como é possível que alguém em sã consciência se oponha? Indagar acerca do inquestionável não afrontaria a dignidade da vítima, eventualmente, ensejando a reparação do dano moral? Hum, talvez tenhamos vislumbrado mais uma de suas sublimes plataformas: o combate à imprensa irresponsável, assim entendida, aquela que debate, denuncia, informa e procura despertar o seu público... Se deixada à vontade, poderia alcançar até os sonâmbulos... Com a devida vênia, oxalá consiga fazê-lo.



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